Ontem fui ver o filme Agora ao cinema.
Ver anexo 67882
Sempre gostei de filmes históricos em geral e no contexto do império romano em particular. Logo, era com natural expectativa que fui ver este e embora o filme tome um rumo que eu não estava à espera acho que é uma boa e interessante película. A vários níveis.
Esperava encontrar um filme que me desse conta ou que me pudesse contar algo sobre como se processou a queda do império romano. E embora esse aspecto esteja bem retratado o tema central não é esse, trata antes um aspecto tão actual como o fundamentalismo religioso e a forma como desde há milénios - sim porque já passaram pelo menos dois - este consegue controlar a vontade de homens e governos.
Não deixa de ser irónico que esse fundamentalismo seja, neste caso, encarnado por cristãos e os perseguidos sejam os judeus - aqui é um dejà vu - assim como os pagãos. Também não era preciso recuar tanto para se ver isto... Afinal o presente não deixa de ser uma repetição da história e a teoria geológia de Charles Lyell também se aplica ao comportamento humano.
Irónico não será o facto dos cristãos terem feições mais próximas do estereótipo que fazemos dos muçulmanos. Todo o espectador mais atento reparará nisso. Todo o espectador mais perspicaz perceberá o porquê.
Um pouco à semelhança do que acontece com o filme/livro Nome da Rosa, aqui também se vê uma perseguição ao conhecimento e à liberdade. E aqui há um pormenor delicioso. Durante quase todo o filme a personagem principal procura a solução para um problema que (quase) todos os espectadores sabem a resposta. Dei por mim a perguntar a mim próprio como é que era possível ela não saber aquilo que é tão óbvio para nós. Pois é óbvio, porque alguém nos ensinou. Descobrir as coisas pela primeira vez é algo infinitamente mais complicado que as ler num livro qualquer.
Também temos um romance à mistura, em que a Hypatia de Alexandria se encontra num triângulo amoroso com o seu escravo e com o seu aluno. Não foi muito explorada esta faceta do filme e penso que a necessidade de não desviar a atenção dos outros temas tenha sido o principal motivo para tal suceder. Ainda assim, em pequenos pormenores do comportamento humano pode estar a chave para grandes acontecimentos.
Nos planos mais técnicos gostei muito da banda sonora e o gostei dos planos de filmagem. Não me parecendo inédito gostei bastante dos planos à la Google Earth que o filme apresenta. Não só gostei como acho que é interessante e didáctico. Uma coisa é lermos livros e ouvir pessoas, outra coisa é visualizar aquilo que por vezes não conseguimos sequer imaginar. Um aspecto bem positivo para os cenários, guarda-roupa e adereços. E para a beleza do Farol de Alexandria.
Não gostei muito da forma que o realizador arranjou para avançar no tempo a meio do filme. Que se meta texto no início e no fim do filme penso que é aceitável. Avançar no tempo a meio do filme através dum textozito parece-me uma solução demasiado simples e simplória. Um pormenor que não estraga o filme mas...
No que diz respeito às interpretações, acho que estiveram todos em bom plano. A Rachel Weisz é cada vez mais uma actriz que dispensa apresentações em que a sua beleza natural apenas é superada pelo seu talento. Max Minghella interpreta o seu escravo e também está em bom nível. Oscar Isaac interpreta o Prefeito Orestes e o melhor elogio que posso fazer é que não consigo imaginar outro esterótipo romano que não tenha a sua imagem e/ou traços. Não conheço ou não me lembro de outros trabalhos que tenha feito e acho que acaba por ser, a maior surpresa em termos de representação.
Acho que Agora é um bom filme e extremamente interessante. Mas também sei que não é filme para agradar a todos e reconheço que lhe falta qualquer coisa - carisma? - para chegar ao patamar dos grandes filmes. No entanto não estou nada arrependido de o ter ido ver.
PS: Cada vez que vi personagem Ammonius lembrei-me do Aldo Lima. Muito parecidos!
Também uma agradavel surpresa.
O ultimo filme de produção espanhola deste género histórico tinha sido uma desilusão (também tinham Viggo Mortensen como cabeça de cartaz para atrair mais pessoal), e por isso fiquei um pouco ansioso quando percebi que vinha aqui do país ao lado. Quando o fui ver, só tinha visto um trailer fraquinho, fraquinho. Felizmente, revelou-se bastante interessante.
Não apresentava um carácter holywoodesco, apesar dos cenários excelentemente executados e toda a caracterizaçaõ de Alexandria.
Apesar de ser história com mais de um milénio em cima, é impressionante como continua actual.
São várias histórias presentes neste filme com um ingrediente comum... religião. E não sai bem vista, mais uma vez.
Aparentemente tudo o que o Homem crê acaba por gerar violência.
Temos cristãos vs judeus vs "politeistas".
Temos muitos paralelismos com a actualidade, em que o islamismo é constantemente notícia pelo fundamentalismo reinante.
No Ágora, encontramos uma luta de dominânica religiosa, a forma como interage com o poder e como procura controlar todos os aspectos da sociedade.
Temos também policia religiosa, que em nome de Deus faz as maiores atrocidades.
A destruição do conhecimento, substituindo-o com os ensinamentos "sagrados". O fim da biblioteca de Alexandria foi sem dúvida um dos episódios mais negros da história da "Humanidade".
E no meio disto tudo, uma filósofa, ateísta (ateía???) interpretada de forma excelente por Rachel Weiz, a cientista da altura, que tenta resolver ao longo do filme um problema, que apesar de ser conhecimento básico agora, obrigava na altura a destruir convenções e contrariar conhecimentos mais que enraízados.
Pode parecer algo básico (como assisti a alguns comentários de pessoas a assistir o filme), mas temos que nos recordar que na altura não havia telescópios, sendo tudo "teorizado" a partir da observação a olho nú, juntamente com a aplicação da geometria.
A única, no meio de todo o non-sense religioso, a não enveredar pela violência para provar o seu ponto de vista.
No meio disto, ainda um espaço para um triângulozito amoroso, que nem sequer é parte relevante do filme, apenas servindo para justificar alguns laços emocionais que se revelam importantes para justificar certas acções mais para o final do mesmo.
Muito interessante o uso dos planos gerais, vistos bem lá de cima.
Perdem-se referências à época, e bem que poderia ser um qualquer cenário de guerra actual.
Os planos daTerra, ao inicio algo incompreensiveis acabam por fazer sentido no decorrer do filme, tendo em conta a natureza do problema que aflige a protagonista, e dando uma perspectiva global, quase reduzindo-nos à nossa insignificância. Somos grãos de areia...para quê complicar?
concordo com o pormenor manhoso da ligação entre "actos" com um texto.
Manhoso, uma reliquia dos filmes mudos, que já não faz sentido nenhum.
Quanto muito, um narrador...
No final, um bom filme, com sólidas interpretações euma história cativante e incrivelmente actual.
Tem uma personalidade própria, sente-se um aroma diferente daquele que nos é dado por filmes semelhantes feitos em hollywood, e só tem a ganhar com isso.