P0rnStar
Banido
As cidades exageradas
Puxa-me bem para dentro
da garganta, canta-me
o ventre inflamado
de onde começam
todas as frases
para que voemos
não da boca nem dos olhos
nem dos rostos divididos
pelas fagulhas mas das mãos
e só das mãos.
Plural
Levantávamo-nos durante a noite
no morno cardume dos sismos
e lamentávamos as cidades.
Sentávamo-nos a escrever,
convictos que nenhum rosto
podia ser o nosso
e que todos os poemas
eram animais carnívoros
a decifrar-nos até ao osso.
Trocávamos gestos e medos:
eu dizia-te que as árvores
eram crianças irrequietas nas paredes
e os teus olhos bandeiras de lume
sempre tão distantes.
Tu, com essa ausência-cal
só tua, escondias os olhos
bem por debaixo do sangue;
suspiravas como se o mundo
fosse acabar ou como o fazias
quando nos sentávamos
a ver as horas pular no rio.
Era assim que passávamos
as semanas e os meses,
sabes, agora que estás cansado
e todas as palavras te envelhecem
com a pressa que sempre tivemos--
o tempo passa (estás a ler isto
e o tempo a afundar-nos - sentes?),
o corpo suspira já mais ave que corpo
e a infância foge das mãos, porra,
a pesar-nos tanto.
As paisagens inclinadas
Penso: que a bruma se desprende
da minha cara imunda de sonos
fingidos e sal e silêncio, que vibra
e explode num mosaico de sentinelas
salgadas e searas despenteadas,
que sacudo as veias desassossegadas
pelo verão e que a lua entreaberta há-de vir
só para deslizar pela persiana com os rios
a galopar nas feridas do meu peito
não vá o diabo tecê-las;
Dantes ouvia o mar, acredito,
na harpa de sombra e lume
a prender a respiração do pó
contra as paredes insatisfeitas:
dantes, sei, bastava acreditar
um pouco mais do que acredito
que encostar a cabeça aos lençóis
carcomidos pelo tempo era ter o frio
a raspar-me o osso;
Penso (e não devia): não sei de mim.
Bem sei que durmo para que me esqueça
do passageiro doente das minhas veias
e do sabor amargo da tua ausência-vertigem;
que penso, subúrbio de mim mesmo,
que folhear o teu corpo é embalar
a inquietude do vento no abismo de ti,
que cada suspiro é o despir incansável
da maresia e da linguagem;
que amanhã, talvez, quem sabe,
o vento não sopre tão forte
nas poeiras do meu rosto
e que eu possa desmaiar
então no asfalto sem saber
com que pé começar.
Sombras de ontem
Sombras de ontem galopam
o teu nome no âmago da chuva;
os relógios, sempre tão enganados,
são feridas e sentinela no asfalto.
Afogar-me-ia antes de ser a âncora
que te prende, cantaste; e quando
as tuas pálpebras de pó suspiraram
como véus de sonho e sal e silêncio,
escondi as horas caladas no bolso.
Lembrar-te-às, cantei,
e eu também, eu sei.
Farpas
Aqui me sento feito poeira irrequieta
e amarga que não me cabe no peito
a pensar que as horas caladas são um navio
de raiva e de lume e que o frio
range na janela como a cal dos rios;
aqui me deito eu de coração inclinado
sobre o bafejar das sílabas dormentes
a redescobrir o silêncio, convencido
de que o tempo é tão pesado
quanto a mão que o carrega,
abismo passageiro do corpo-ânsia.
Aqui me sento incansável
sobre a sombra da minha sombra
a ver o mar deslizar lento
(sempre lento) nos meus ombros
como um formigueiro debaixo
da língua indecisa,
teimoso em fingir que tenho
a morte a morder a lua
na minha mão febril e que já não sei
se é silêncio ou labareda
este som que arrepia
a distância e sacode o pó
das minhas pálpebras
quando finjo dormir.
Original
Puxa-me bem para dentro
da garganta, canta-me
o ventre inflamado
de onde começam
todas as frases
para que voemos
não da boca nem dos olhos
nem dos rostos divididos
pelas fagulhas mas das mãos
e só das mãos.
Plural
Levantávamo-nos durante a noite
no morno cardume dos sismos
e lamentávamos as cidades.
Sentávamo-nos a escrever,
convictos que nenhum rosto
podia ser o nosso
e que todos os poemas
eram animais carnívoros
a decifrar-nos até ao osso.
Trocávamos gestos e medos:
eu dizia-te que as árvores
eram crianças irrequietas nas paredes
e os teus olhos bandeiras de lume
sempre tão distantes.
Tu, com essa ausência-cal
só tua, escondias os olhos
bem por debaixo do sangue;
suspiravas como se o mundo
fosse acabar ou como o fazias
quando nos sentávamos
a ver as horas pular no rio.
Era assim que passávamos
as semanas e os meses,
sabes, agora que estás cansado
e todas as palavras te envelhecem
com a pressa que sempre tivemos--
o tempo passa (estás a ler isto
e o tempo a afundar-nos - sentes?),
o corpo suspira já mais ave que corpo
e a infância foge das mãos, porra,
a pesar-nos tanto.
As paisagens inclinadas
Penso: que a bruma se desprende
da minha cara imunda de sonos
fingidos e sal e silêncio, que vibra
e explode num mosaico de sentinelas
salgadas e searas despenteadas,
que sacudo as veias desassossegadas
pelo verão e que a lua entreaberta há-de vir
só para deslizar pela persiana com os rios
a galopar nas feridas do meu peito
não vá o diabo tecê-las;
Dantes ouvia o mar, acredito,
na harpa de sombra e lume
a prender a respiração do pó
contra as paredes insatisfeitas:
dantes, sei, bastava acreditar
um pouco mais do que acredito
que encostar a cabeça aos lençóis
carcomidos pelo tempo era ter o frio
a raspar-me o osso;
Penso (e não devia): não sei de mim.
Bem sei que durmo para que me esqueça
do passageiro doente das minhas veias
e do sabor amargo da tua ausência-vertigem;
que penso, subúrbio de mim mesmo,
que folhear o teu corpo é embalar
a inquietude do vento no abismo de ti,
que cada suspiro é o despir incansável
da maresia e da linguagem;
que amanhã, talvez, quem sabe,
o vento não sopre tão forte
nas poeiras do meu rosto
e que eu possa desmaiar
então no asfalto sem saber
com que pé começar.
Sombras de ontem
Sombras de ontem galopam
o teu nome no âmago da chuva;
os relógios, sempre tão enganados,
são feridas e sentinela no asfalto.
Afogar-me-ia antes de ser a âncora
que te prende, cantaste; e quando
as tuas pálpebras de pó suspiraram
como véus de sonho e sal e silêncio,
escondi as horas caladas no bolso.
Lembrar-te-às, cantei,
e eu também, eu sei.
Farpas
Aqui me sento feito poeira irrequieta
e amarga que não me cabe no peito
a pensar que as horas caladas são um navio
de raiva e de lume e que o frio
range na janela como a cal dos rios;
aqui me deito eu de coração inclinado
sobre o bafejar das sílabas dormentes
a redescobrir o silêncio, convencido
de que o tempo é tão pesado
quanto a mão que o carrega,
abismo passageiro do corpo-ânsia.
Aqui me sento incansável
sobre a sombra da minha sombra
a ver o mar deslizar lento
(sempre lento) nos meus ombros
como um formigueiro debaixo
da língua indecisa,
teimoso em fingir que tenho
a morte a morder a lua
na minha mão febril e que já não sei
se é silêncio ou labareda
este som que arrepia
a distância e sacode o pó
das minhas pálpebras
quando finjo dormir.
Original