Tópico da Poesia

As cidades exageradas

Puxa-me bem para dentro
da garganta, canta-me
o ventre inflamado
de onde começam
todas as frases
para que voemos
não da boca nem dos olhos
nem dos rostos divididos
pelas fagulhas mas das mãos
e só das mãos.






















Plural

Levantávamo-nos durante a noite
no morno cardume dos sismos
e lamentávamos as cidades.

Sentávamo-nos a escrever,
convictos que nenhum rosto
podia ser o nosso
e que todos os poemas
eram animais carnívoros
a decifrar-nos até ao osso.

Trocávamos gestos e medos:
eu dizia-te que as árvores
eram crianças irrequietas nas paredes
e os teus olhos bandeiras de lume
sempre tão distantes.

Tu, com essa ausência-cal
só tua, escondias os olhos
bem por debaixo do sangue;
suspiravas como se o mundo
fosse acabar ou como o fazias
quando nos sentávamos
a ver as horas pular no rio.

Era assim que passávamos
as semanas e os meses,
sabes, agora que estás cansado
e todas as palavras te envelhecem
com a pressa que sempre tivemos--

o tempo passa (estás a ler isto
e o tempo a afundar-nos - sentes?),
o corpo suspira já mais ave que corpo
e a infância foge das mãos, porra,
a pesar-nos tanto.


As paisagens inclinadas

Penso: que a bruma se desprende
da minha cara imunda de sonos
fingidos e sal e silêncio, que vibra
e explode num mosaico de sentinelas
salgadas e searas despenteadas,
que sacudo as veias desassossegadas
pelo verão e que a lua entreaberta há-de vir
só para deslizar pela persiana com os rios
a galopar nas feridas do meu peito
não vá o diabo tecê-las;

Dantes ouvia o mar, acredito,
na harpa de sombra e lume
a prender a respiração do pó
contra as paredes insatisfeitas:
dantes, sei, bastava acreditar
um pouco mais do que acredito
que encostar a cabeça aos lençóis
carcomidos pelo tempo era ter o frio
a raspar-me o osso;

Penso (e não devia): não sei de mim.

Bem sei que durmo para que me esqueça
do passageiro doente das minhas veias
e do sabor amargo da tua ausência-vertigem;

que penso, subúrbio de mim mesmo,
que folhear o teu corpo é embalar
a inquietude do vento no abismo de ti,
que cada suspiro é o despir incansável
da maresia e da linguagem;

que amanhã, talvez, quem sabe,
o vento não sopre tão forte
nas poeiras do meu rosto
e que eu possa desmaiar
então no asfalto sem saber
com que pé começar.

Sombras de ontem

Sombras de ontem galopam
o teu nome no âmago da chuva;

os relógios, sempre tão enganados,
são feridas e sentinela no asfalto.

Afogar-me-ia antes de ser a âncora
que te prende, cantaste; e quando
as tuas pálpebras de pó suspiraram
como véus de sonho e sal e silêncio,
escondi as horas caladas no bolso.

Lembrar-te-às, cantei,
e eu também, eu sei.


































Farpas

Aqui me sento feito poeira irrequieta
e amarga que não me cabe no peito
a pensar que as horas caladas são um navio
de raiva e de lume e que o frio
range na janela como a cal dos rios;

aqui me deito eu de coração inclinado
sobre o bafejar das sílabas dormentes
a redescobrir o silêncio, convencido
de que o tempo é tão pesado
quanto a mão que o carrega,
abismo passageiro do corpo-ânsia.

Aqui me sento incansável
sobre a sombra da minha sombra
a ver o mar deslizar lento
(sempre lento) nos meus ombros
como um formigueiro debaixo
da língua indecisa,

teimoso em fingir que tenho
a morte a morder a lua
na minha mão febril e que já não sei
se é silêncio ou labareda
este som que arrepia
a distância e sacode o pó
das minhas pálpebras
quando finjo dormir.

Original
 
apr:)

É um talento que gostava de ter. Gosto de escrever, mas vou fazendo tipo "psicanálise" e escrevendo ao mesmo tempo, e saem-me versos que mais ninguém entende.

Continua aí a colocar as tuas obras [;)]

Já agora, para quem quiser umas leituras, o citador é um óptimo lugar, de fácil acesso [;)]
 
O que sonhei e antes de vivido
Era perfeito e lúcido e divino,
Tudo quanto sonhei se foi perdido
Nas ondas caprichosas do destino.

Que os fados em mim mesmo depuseram
Razões de ser e de não ser, contrárias,
Nas emoções que, dentro em mim, cresceram
Tumultuosas, carinhosas, várias.

Naqueles seres que fui dentro de um ser,
Que viveram de mais para eu viver
A minha vida luminosa e calma,

Se desdobraram gestos de menino
E rudes arremedos de assassino.
Foram almas de mais numa só alma.

Francisco Bugalho, in "Dispersos e Inéditos"
 
Às vezes penso, penso, penso...
O difícil é agir com exatidão
com a segurança de quem nunca errou.
Mas errar!

Quem não erra?

O erro deve ser compensado com desculpas?
Pergunto-me, onde errei?
Por onde devo continuar?
Será que vou errar!
Difícil, não sou perfeito.
Tenho de errar para aprender
se desconcertar para agir certo de uma forma
para não ter erros.

Mas por que tenho de ser certo?

Posso errar sim. E errar com o gosto de quem erra
para tentar de novo, mesmo errando muitas vezes.
Como num sonho, um amor, uma vida errada.
Agora não temo mais errar, pois errar é sinônimo de
aprendizado.

De uma vida com erros de experiências aprendidas, por
uma inocência de vida ou da inconsequência dos meus
acertos errados.

Higor Assis
 
As paisagens inclinadas

Penso: que a bruma se desprende da minha cara imunda
de sonos fingidos e sal e silêncio, que vibra e explode
num mosaico de sentinelas salgadas e searas despenteadas,
que sacudo as veias desassossegadas pelo Verão
e que a lua entreaberta há-de vir só para deslizar pela persiana
com os rios a galopar nas feridas do meu peito
não vá o diabo tecê-las;

que ouvia o mar, acredito, na harpa de sombra e lume
a prender a respiração do pó contra as paredes insatisfeitas;
que dantes, sei, bastava acreditar um pouco mais do que acredito
que encostar a cabeça aos lençóis carcomidos pelo tempo era ter o frio
a raspar-me o osso.

Penso (e não devia): não sei de mim.

Bem sei que durmo para que me esqueça
do passageiro doente das minhas veias
e do sabor amargo da tua ausência-vertigem;
que penso, subúrbio de mim mesmo,
que folhear o teu corpo
é embalar a inquietude do vento
no abismo de ti e que cada suspiro
é o despir incansável da maresia e da linguagem;

que amanhã, talvez, quem sabe, o vento não sopre tão forte
nas poeiras do meu rosto e eu possa desmaiar então no asfalto
sem saber com que pé começar.

Sinónimo

i.

a língua do mar celebra a sede na areia

(olha: as crianças a desafiar as ondas
e as suas mãos sempre sujas de tantos sonhos)

ii.

as aves nascem dos rios
no anoitecer das feridas
e a solidão rema pelas ruas
a bater em todas as portas

(recuamos do reflexo lentamente
como quem aprende a navegar o lume dos dias)

r e s p i r a - m e
no inclinar da casa mais azul
para sermos a anatomia
de todas as coisas.


Cansaço
(Sinónimos II)

as carruagens desertas

i.

o silêncio cobriu o asfalto durante a noite
e soltou todas as aves sobre os rios
sem que eu desse por isso.

ii.

debruço-me sobre o fogo dos lábios
como quem aprende a andar

(alguém escreveu o meu nome nos espelhos)

iii.

o medo de um dia já não te encontrar nas palavras

a chuva vai caindo, confusa, sobre os passeios.


diluímo-nos nas águas negras lentamente
e a noite infiltra-se na pele a percorrer o corpo
por inteiro.


A urgência da língua


Soletro o nome das marés
sobre o furor da areia:
de mão dada com o vento
para atear as folhas,
despeço-me do mar
e adormeço no trigo
para me lembrar
que nunca fui criança.
 
Alpendre (original)

Vem: vem com a pressa
da lua entornada no mar
e dos vestidos
com que regas as estações
na confusão do teu corpo.

Vem: deixa que o tempo
se arraste com as horas amargas
na cal dos teus lábios
como uma serpente
que adormece
no asfalto e engole
os meus gestos:

Deixa que eu lave o frio
das tuas mãos quando a noite
vem despida de sentido,
quando te fechas no sótão
com o rosto vincado das paredes
a embalar um berço vazio e teimoso
e não te cansas dessa valsa
que suspiras.

- Não quero adormecer.

- E se eu rasgar o mar
só p'ra te ver?

E tu sabes que o faria
quando vês o meu sorriso
queimado na seda
do lençol,

e mesmo que não fales
quando os teus lábios tremem
e finjo adivinhar-te,
soletras no teu sonho
o que o teu corpo teima
em não cantar.

Vem: enrola a tua mão na minha
e desmaia no peito de cada sílaba soletrada
como aves que não pediram para voar,
soltas casa fora, soltas casa fora:

Vem, por ruas desertas
e passeios desgastados,
mas vem.

***
 
24-10-2009

The night salivates its sap
upon my frost-decorated jaw,
purrs, stops and purrs again;

A feather climbs its way
onto an owl-eyed moon
bathed in burnt sienna
and flees upon a swan's back.

The waters keep my eyes awake
like moonbeams; wind-stirred,
I shed my husk of dried leaves:
long now they sleep
beneath the grass.

In a tree, somewhere in the distance
I am sure, a humming-bird
hatches its way out of an egg
just so it can taste light
for the very first time.

As I sleep, I am certain,
the sun will rise like a monument
from behind the fringe of a mountain
without asking for applause
and I will be the last to complain.

24-10-2009

O nome dos dias

Que a tua boca lave as minhas mágoas,
amor; que uma ave levante voo
do meu peito e bata as asas
como duas luas na minha garganta
num sopro pouco, leve, meio silêncio,
meio pássaro, a esconder
o nome dos dias na espuma
dos gestos inacabados;

que a luz se derrame, amor;
que a luz se derrame e demore
a escoar pelos dedos entreabertos
para que o sono de meias-noites escorra
varanda fora e a lepra do teu beijo
soletre as águas negras;

que a chuva morda o chão, amor,
bêbeda de sombra a decorar
o nome dos lilases
para bebermos do abandono
e das aves perdidas em nós.


A poeira dos passos

E tudo em nós quer voar:
tudo o que é água e luz
e seara em nós quer sacudir
as crinas, entrar como o mar
janela adentro e voar—
e eu quero beber
dos teus olhos
para que de mim brotes em flor
e te inclines ao sabor do vento
com a música do meu beijo
a inundar a tua boca.
 
Janeiro 2009

Avô: sei que agora és a cortina branca da lua sobre as águas mais negras e não te culpo. Não posso. Sei que não querias ir, que nos querias ver casar e ser felizes, mas o teu coração sempre foi navio traiçoeiro e o medo era constante. Quem me dera sacudir a tua ausência de todas as paredes, confesso, mas sei que também não nos irias querer ver chorar. Esse teu sorriso tranquilo e brincalhão iluminava os cantos da casa, avô. Tenho saudades tuas e das tuas palavras a encher os bolsos sempre tão irrequietos de sonhos.

Dói tanto ver assim o meu pai, avô. Tu sabes que cá em casa as emoções são poucas e os dias vão passando, sem lágrimas, pela calada dos ecos. E a avó? Nunca a vi assim, avô, as mãos em concha, vincadas pela pressa dos dias a serem náufragos, tão perdida, tão perdida. Que palavras lhe posso eu dar, avô, que a confortem? Que canção lhe posso eu dar que seja mais alta que a tua ausência? Nenhuma. E o meu pai, meu deus, que nunca assim o vi, por mais anos que recue e raspe das fotografias mais antigas; o meu pai, meu deus, que me deixou sem palavras a dizer que eu já não tinha avô, o meu pai que se agarrou a mim a ser a brisa de todas as casas vazias. Mas tenho avô, sabes? Tenho e sempre terei, tal como ele sempre terá o pai a ser luz pelas ruas mais apertadas e a ensinar-lhe a pescar como se fosse o primeiro dia que os anzóis já não são mistério. O meu pai, que sofre do que tu sofreste e que tanto nos assusta, a quem ensinaste que às vezes se deve tocar o asfalto em lume com os pés nus para saber onde começar, o meu pai que contigo passou fome e viu os dias alongarem-se com a dor do trabalho e a pressa da infância a passar ao lado, avô, o meu pai a quem tanto ensinaste e que tanto nos dá graças a ti.
Mas eu disse-lhe, sabes, para ser forte e ter coragem, porque tu não nos irias querer ver assim, confusos e zangados por teres sido levado tão repentinamente dos nossos braços de mar; disse-lhe pai, ele vai estar sempre a olhar por ti: dedica-lhe os teus gestos e os teus sorrisos, dedica-lhe o esforço e cada dia que passa com o sol a nascer de todas as janelas e desses olhos que tão cedo viram o fogo e a noite e o miar febril da pobreza a entrar por todas as persianas; força, pai, e coragem: todos os dias são aves nas nossas mãos a pedir para voar casa fora.

Ainda hoje não o vi, sabes.

E a avó, tão inconsolável. Nunca a vi assim, aquela voz tremida e assustada num tom que só se tem quando alguém parte sem aviso, aquele olhar curvado a pedir ao chão que traga de novo o som dos teus passos e a forma como a tua presença completa a casa e os retratos e a almofada tão fria. Ela está confusa e não sabe de ti, avô (onde foste, onde foste?). As horas passam e os braços cada vez mais vazios de ti, os olhos a inchar com dúvidas e mágoa, mágoa, mágoa, o coração a perguntar porquê, porquê ele e não eu? porque não me levas contigo? As lágrimas a traçar caminhos rosto fora a tentar encontrar-te num qualquer sítio onde ela também possa ir para te ouvir dizer vou às compras Isabel, queres alguma coisa? mas tu teimas em não vir como quem cruza os braços e é criança outra vez. E o teu carro, avô, que já não se ouve a estacionar ou a levar-nos aqui e ali, tu que sempre te ofereceste e perguntaste se precisávamos de boleia quando o frio apertava e a chuva cantava em todos os rios.

A mesa tão vazia, avô, e a sopa cada vez mais fria porque o tempo não pára e sabe-lo tão bem; a porta entreaberta como quem espera ouvir aquele ranger típico de quem a abre sorrateiramente a ser toda a alegria do mundo para que a saudade, essa sim, se possa guardar nas gavetas onde semeaste tantos silêncios.

E a minha irmã, avô, que viu a vida escapar-te pela garganta e pelos olhos e pelas mãos a tornar tudo tão frio tão de repente; a minha irmã, nova demais para saber o que é a morte ou para onde vamos quando o corpo está cansado e nos quer ver ser andorinha a cantar na árvore mais verde, a minha irmã que já viu a avó ser meia-pessoa de um momento para o outro a querer também ela ser gaivota nos telhados. Porquê, avô? Tu que foste doce e paraste o carro para partir sem que mais ninguém te seguisse, tu que sempre nos inspiraste tanto com esse sorriso de quem tem todas as dálias nas mãos para nos ensinar a folhear a chuva e escondê-la na parte mais triste do corpo. Não percebo, avô.

iii.

Estou tão confuso, sabes. Tanta areia que me escapa pelo intervalo dos dedos sem que eu a possa segurar, tanta incerteza a ser fogo na palma das mãos enquanto te procuro em todas as ruas para me leres um dos teus poemas e me dizeres que estás vivo, que posso acordar e não ter que ver o meu pai envelhecer tantos anos de repente com os mares a nascerem do verde dos olhos, avô.

O meu pai, o meu pai. Dá-lhe força, tu também. Peço-te que isso nunca deixes a meio, porque eu prometo fazer o mesmo.

Deste-nos muito, avô, e por isso te agradeço. Que nos visites de vez em quando a pousar nos telhados como quem vê o medo desprender-se dos ossos e a Primavera a ser-nos tudo, sempre, sempre. A ti, avô, dedico estas palavras e um sorriso de quem diz até já.

Obrigado, e até já. Vemo-nos em breve, eu sei.

O teu neto.
 
Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.
[/quote]

William Shakespeare
 
Vejamos só aquilo que me saiu hoje numa aula de inglês:


Sun and moon

I've been trying to discover
How the sun can be so bright
And the reason why it has to cover
The moon that only shines at night.

I don't know which of both is better
Probably I shouldn't follow that way
As i am not specialist in the matter
What else can I say?
[:D]
 
Quem eu sou?
Não me encontro, não conheço
Para onde olho, para onde vou
Não sei porquê, porque mereço
Este olhar que a mim fitou

Quem tu vês?
Um riacho turvo e fraco
Como a palidez da minha tez
Amor meu feito num caco
O que foi, o que o fez?

Quem me agarra?
Se ousa chegar perto
E não acha o que contava
Não é justo, não é certo
Por isso me refugiava

Perdido nas malhas dos céus
Sombrio nas luzes difusas
À espera, como os outros réus
Das suas penas obtusas

Não sei se deles, não sei se minha
A culpa desta vida perdida
Desde que nasci, decerto tinha
A minha fatal sentença lida
 
SER POETA



Ser poeta é viajar no pensamento,
E caminhar nesse universo sem norte,
Abrir as entranhas do sentimento,
Para fugir ao esquecimento da morte.

É estar fora de nós desordenadamente,
Deixar a alma flutuar na lua cheia,
Ser essa criança inocente,
Que enche de vida a aldeia.

É ser pássaro livre num céu de emoções,
Comungar da paisagem, perder-se no conflito,
De ter dentro de si todas as contradições,
E nesse universo procurar o infinito.

É engolir a vida sempre que preciso,
Esconder a face, congelar misérias,
Disfarçar tristezas num belo sorriso,
Encher de cores as coisas mais sérias.

É ter sempre um verso sem guarida,
Num corpo que respira ao descoberto,
Nos olhos uma porta aberta para a vida,
Na alma a dor amordaçada do incerto.

É dar passos de coragem em rua escura,
Construir uma ponte sobre o mundo,
Beber a alegria na ressaca da amargura,
Viver do lixo como qualquer vagabundo.

É abrir as entranhas e transformar,
Esse acto fraticida,
Em palavras para dar,
Outros sentidos à vida.

É ter mil seres para deslindar,
E neles ser saltimbanco,
E só encontrar o seu lar,
Num mundo de folhas em branco.

É escutar quando queremos falar,
Falar quando nos querem sem voz,
Escrever quando devíamos gritar,
Tudo o que vamos calando em nós.

É cantar quando não temos voz,
Dançar ao som do silêncio,
Caminhar na multidão a sós,
Voar quando não sopra o vento.

É ser um comum mortal,
Animal de carne e osso,
Que entre o bem e o mal,
Escolhe o melhor desse fosso.

É transformar sonhos em realidade,
Passar da tristeza à alegria,
Ir num instante do campo à cidade,
Transformar a noite em dia.

É fazer os fracos capazes,
De lidar com as desilusões,
Transformar desertos em oásis,
Para conforto das solidões.

É ter tudo e não ter nada,
E nunca perder o encanto,
De trilhar essa estrada,
Que dos sonhos faz seu manto

Plácido de Oliveira
 
Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
 
BIOFAGIA

É vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.

Mia Couto
 
Senti que estavas aqui
mesmo não dizendo nada
presenciei o teu respirar
ofuscado pelas palavras
inertes e incessantes.
Sentimentos em que silencias
o tempo na fugacidade
da harmonia atroz que se esvai.
Lamento informar-te o quanto te amo,
lamento sentir esta coisa inútil
chamada amor que me consome
e só me faz sofrer por ti
aqui onde sempre me senti imune.
Desculpa se não digo as palavras certas,
desculpa se tremo perante o teu olhar
desculpa se te quero bem.
Anseio por ouvir a tua voz
desejo o teu cheiro, o teu respirar,
o teu amor ou a tua paixão.
Castelos no ar onde durmo acordado
em lencóis feitos de vento e sonhos
Sonho acordado e desejo-te
para além de tudo nada mais sinto
além deste sentir tão sentido.

JR
 
Para não estar a abrir outro tópico, aqui deixo um pequeno tributo às mães e às saudades que eu tenho da minha...:

«Tu és linda, minha mãe! – dizia o pequeno Carlos fixando-a nos olhos negros. Ela sorriu-se, sentindo a doce carícia daquela boca gentil. – E podes acreditar-me: cara mais linda que a tua ninguém encontra, não há! Das tuas mãos é que eu não gosto. – Sim, são feias, tens razão. De hoje em diante, meu filho, vou evitar que tu as vejas... – E a propósito, respondeu o pai: precisas de ouvir uma história muito bonita, embora a sua lição seja um bocadinho triste. Vem aqui para o pé de mim. Vamos lá, não te distraias. E começou a contar: certa noite, uma criança dormia tranquilamente quando, por descuido inexplicável, a luz mortiça da lamparina incendiou as cortinas de cambraia do seu berço. Aos gritos da ama, correu a mãe aflitíssima que, sem hesitar, lançou os braços para o filho, arrancando-o àquela morte tão má. E as suas mãos muito brancas, com as veias muito azuis, tornaram-se... disformes, horrivelmente queimadas. Depois..., o pequeno não aguardou a conclusão; correu para a mãe e disse, abraçando-a num beijo de alma: as tuas mãos são as mais belas do mundo.» António Boto in "O Livro das Crianças", 1931.
 
sinto os teus lábios perto dos meus
quando tocas na minha mão
e em silêncio dizes que me amas
e exarcebamos o nosso amor
nas cartas que não escrevemos
nas palavras que não dissemos
nas noites em que dormimos sozinhos
atormentam-me estes silêncios
de quando nada projectamos
além desta dor dor que se perpetua
quando arriscamos não ser felizes
a simplicidade nunca foi o meu forte
não me ensinaram como ser feliz
nas contas de somar que aprendi
(juntos seria mais simples)
nos textos que escrevi
(sou um poeta de palavras)
nas brincadeiras de recreio
(sou um puto que sonha)
desejei o amor que alimentei
no meu âmago interior
mas a manhã que surgiu
desmoronou o castelo
que se esvaiu como espuma
no mar que encontrou a areia
e assim ficámos no silêncio...
 
Last edited:
Caminho noite adentro no teu pensamento
Invado os teus sonhos e os teus desejos
Acaricio o teu rosto e beijo os teus lábios
Toco a tua pele e percorro os teus cabelos
Que deslizam pelo teu corpo despido
De preconceitos acordo a teu lado
Na noite que nos aquece por entre lençóis
Deslizamos nas horas que nos perdemos
No tempo e nos encontramos no infinito
Do prazer de tanto nos amarmos…
 
Este tópico fui buscar
Há muito nele não escrevia
Passo a noite a rimar
Depois durmo de dia

O estilo continua marado
O conteúdo nada de jeito
Um STOP é encarnado
Um b*****, alfinete de peito

Que raio é que ele escreveu?
Não faz o minimo sentido
Txi, com a cabeça bateu...
Eh, que divertido

Não se aproveita uma linha
Está totalmente avariado
Na garagem da vizinha
O óleo é trocado

Vá, agora em inglês
You sorry son of a beach
Como? Não vês?
I rhyme, you wish

Yes the expression is not like that
It should be b****
A plane flies, I bet
By using roll, yaw and pitch

Et le français?
Croissant et baguette
Oui, c'est vrai
Sortudo é quem o mete

Ainda resta esperança
De sair algo concreto
De uma mudança
Trazer algo correcto

Não, esqueçam lá isso
Hoje não dá jeito
Tanta tolice
Torna isto perfeito

Se não gostarem azar
Têm bom remédio
Podem bazar
Raios, que tédio!
 
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