1,5% de aumento para a FP...

Pé Leve o meu Up e essa noticia não foi inocente, e preparou o terreno para esta que só agora ficou disponivel OnLine.

Para que conste estas são as minhas três citações preferidas do texto, havia mais mas estas chegam:


citação:O que significa que quase um quinto da população activa tem o Estado como seu patrão. Por incrível que pareça, o número é inferior ao de quase todos os países da União Europeia (Só em Espanha e no Luxemburgo é que há mais pessoas a receberem a conta-ordenado no sector privado)



citação:ANTÓNIO CORREIA DE CAMPOS, MINISTRO

'SOMOS MAL PAGOS PARA A FUNÇÃO QUE TEMOS'

Idade: 63 anos

Salário líquido: 2700 euros

Horas trabalho: 50 Horas semanais


citação:O ano de 2006 já deixou marcas: é aquele em que ser funcionário público passou a ser antónimo de vida boa.


Agora fico de fora a ver ... fui :D



Do cantoneiro ao ministro
Retrato da Função Pública

O que têm em comum uma cantoneira de Alhos Vedros e o ministro da Saúde? Em 2006, tiveram um aumento de 1,5 por cento no seu salário. Retrato dos funcionários públicos.


De auricular colado ao ouvido, o senhor Gonçalves atende mais uma chamada na central telefónica. “Ora, tenha a bondade”, diz, num tom quente e coloquial que não condiz com o olhar conformado, por vezes ausente. Do outro lado da linha, uma idosa pede informações. Quando passa o telefonema, menos de um minuto depois, tem mais três em lista de espera. Não se atrapalha.

“Ora tenha a bondade”, repete, evitando um suspiro de desânimo. Aos 54 anos, o telefonista de sorriso fácil que trabalha como segurança nas horas vagas para compensar o magro ordenado, só pensa na reforma antecipada: “Vou levar uma grande porrada mas não quero saber. O dinheiro não é tudo. Não vou trabalhar até aos 65 anos”, afirma, sem lamúrias, quando desliga o telefone. Os últimos tempos têm sido de loucos para o senhor Gonçalves, afectado pelo vendaval reformista do Governo. Ele e para os restantes 727 mil funcionários públicos: ao aumento progressivo da idade de aposentação veio juntar-se o fim dos regimes especiais na saúde, o congelamento das carreiras e o aumento dos salários em 1,5 por cento, que lhes retirou ainda mais poder de compra. Argumento de Sócrates e companhia? A baixa produtividade da Administração Pública e a crise das Finanças Públicas, que obrigam o executivo a apertar o cinto.

No entanto, entre 2001 e 2005, foi o Estado português quem empregou mais gente: 121 mil foram contratados para preencher vagas na Administração Pública, ensino e saúde. Bem-vindos ao país dos paradoxos.

UM POR CADA TREZE

Por cada treze portugueses, um é funcionário público. O que significa que quase um quinto da população activa tem o Estado como seu patrão. Por incrível que pareça, o número é inferior ao de quase todos os países da União Europeia (Só em Espanha e no Luxemburgo é que há mais pessoas a receberem a conta-ordenado no sector privado). Na Suécia, país do Estado-Previdência, um terço da população tem uma função pública. Quantidade nem sempre é sinónimo de mais despesas.

Enquanto o Estado Sueco gasta com os seus empregados cerca de dez por cento do seu PIB, em Portugal, o valor é mais pesado e ascende aos 15 por cento. Calcula-se que um terço das despesas correntes do Estado sirva para pagar os ordenados de funcionários públicos. O Governo quer inverter a tendência com a modernização na administração pública – que por sinal poderá custar aos contribuintes 136 milhões de euros.

Desde que José Sócrates abriu a boca para falar em reformas, os sindicatos atiraram-se às suas canelas anunciando greves para todos os gostos. O final do ano promete ser ainda mais tempestuoso, a avaliar pelas declarações contundentes do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, que já disse alto e bom som: “vamos reduzir drasticamente o número de funcionários públicos”. Quantos ao certo, ninguém sabe. É mais um tabu nacional para a colecção. O encerramento de dezenas de organismos públicos segue dentro de mumentos.

O ano de 2006 já deixou marcas: é aquele em que ser funcionário público passou a ser antónimo de vida boa.



PAULO SIMÕES, MÉDICO

'NOVE EM CADA DEZ SÃO BONS PROFISSIONAIS'

Idade: 44 anos

Salário líquido: 3550 euros

Horas trabalho: 70 Horas semanais

Hobbies: pintura.

É mais uma manhã agitada no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. O cirurgião Paulo Simões sobe apressadamente as escadas em caracol e troca frases com as enfermeiras nos corredores. O discurso é energético, nem parece carregar com doze horas de trabalho nos ombros. Quando se senta finalmente numa cadeira, o seu rosto revela os resquícios da noite em branco: os papos e olheiras não enganam. Nem vale a pena olhar para o relógio porque só irá despir a bata branca quando a claridade se dissipar.

São 70 horas semanais a fazer transplantes e a operar doentes renais e oncológicos. Mesmo que quisesse, não teria tempo para fazer uma perninha num hospital particular, como faz a sua mulher, também ela cirurgiã: “Ela acaba por ganhar mais dinheiro do que eu, com os dois salários”, diz sem ressentimentos. O caso de Paulo é a excepção e não a regra. Todos os dias ouve lamúrias sobre a escassez de profissionais de saúde, mas em Novembro, o ministro veio dizer que afinal são de mais.

“Não é verdade. Estamos é mal distribuídos.” A solução poderia passar pela transferência de médicos de uma especialidade para outra, mas para o cirurgião, a ideia é tão sensata como a de receitar Aspirina a um doente com Parkinson. “Não somos peças indiferenciadas. Eu tenho uma especialização de 14 anos em cirurgia, não me podem colocar de repente na obstetrícia.” A classe continua com a imagem em baixa. Não há campanhas de marketing que valham. “Nove em cada dez são bons profissionais”, assegura. Paulo Simões sabe como distinguir um mau cirurgião no meio da multidão. “É fácil. São os que se preocupam mais em tirar órgãos do que com a qualidade de vida do paciente após a operação”, explica. Esses andam com processos disciplinares às costas.



JOÃO LOPES, FUNCIONÁRIO JUDICIAL

“SE A JUSTIÇA ESTÁ LENTA NÃO É DE CERTEZA POR CULPA DOS FUNCIONÁRIOS'

Idade: 37 anos

Salário líquido: 1000 euros

Horas trabalho: 35 Horas semanais

Hobbies: Jogar ténis

A batina preta fica-lhe um pouco larga. Parece mais um finalista da faculdade do que um funcionário judicial, embora o cabelo já lhe comece a rarear. Talvez seja do stress da profissão. João Lopes queixa-se das rotinas, que vão corroendo a sua motivação, mas não deixa de puxar os galões: “Este é um trabalho de grande responsabilidade.” Todos os dias passam pelas suas mãos mais de 150 processos. Papelada que se acumula na sua secretária.

Em média, despacha-os em dez minutos mas os mais complexos podem roubar-lhe uma manhã inteira de trabalho. É que embora o tribunal cheire ainda a novo (tem cinco anos de vida) os velhos problemas teimam a persistir: “Poderia ser tudo mais eficaz se tivéssemos computadores mais modernos”. Ele divide o seu dia entre a secretária e a sala de tribunal, onde faz assistências a diligências. Quando os interrogatórios a presos se prolongam até às tantas, João não pode simplesmente arrumar os dossiers, pendurar a batina e partir.

“Já não ganhava mais dinheiro com as horas extraordinárias e agora o Governo vem acabar com os nossos privilégios”, acusa. Se é verdade que as sete horas diárias nunca passaram de mera teoria, agora as reformas saltaram, em pouco tempo, dos 55 para os 65 anos, a progressão na carreira é ficção jurídica e os benefícios sociais do Ministério da Justiça, águas passadas. “Tenho cada vez mais vontade de ser um típico funcionário público, daqueles com as rotinas mecanizadas”. Já passou da teoria à prática. Ultimamente tem protestado com uma silenciosa greve de zelo, como fazem os juízes. E promete não baixar os braços tão cedo. “Se a justiça está lenta não é de certeza por culpa dos seus funcionários.”



ANTÓNIO GONÇALVES, TELEFONISTA

'SOU UMA ESPÉCIE DE RELAÇÕES PÚBLICAS'

Idade: 54 anos

Salário líquido: 700 euros

Horas trabalho: 35 Horas semanais

Hobbies: Não tem

“Ora tenha a bondade”, diz António Gonçalves depois de puxar mais uma chamada na central telefónica do Hospital dos Capuchos, em Lisboa. O ritmo é imparável. Atende, fala, transfere, desliga. Atende Às duas da tarde, quando sair da secretária e passar o auricular à funcionária do turno seguinte, terá falado com mais de mil pessoas. Não é por acaso que tem uma garrafa de litro e meio de água natural ao lado da moderna consola. É para aclarar a voz, o seu precioso instrumento de trabalho. Aos 54 anos, atingiu o pico da carreira e espera agora pela reforma antecipada.

“Meti os papeis no ano passado, quando o Governo anunciou as mexidas na função pública, embora não me vá compensar financeiramente, pois vou levar uma grande porrada”, confessa. Mas está farto. Farto de trabalhar durante 39 anos, com um salário magro e muitos descontos. Farto de ter dois empregos para não falhar o sustento à família. Simplesmente, farto.

Apesar dos revezes, o senhor Gonçalves, como é tratado pelos colegas, não é um homem amargo. No final de cada frase, solta uma gargalhada aveludada. É a sua voz quente que agasalha as centenas de pacientes, que ligam em desespero para marcar mais uma consulta. E é ele quem, por vezes, desbrava o caminho entre o doente e o seu médico. “Sou uma espécie de relações públicas do hospital, o primeiro contacto de quem está de fora”, diz com orgulho o telefonista que já perdeu a conta ao número de vidas que ajudou a salvar com uma simples chamada. Ele leva a sua função a peito, embora este não fosse um sonho de criança. “Isto faz-me vibrar. Num minuto, posso estar a falar com um deputado. No outro, com uma reformada.” Mas para quase todos, António Gonçalves não passa de uma peça invisível na engrenagem.



JOSÉ RODRIGUES, GUARDA-FLORESTAL

' A MÉDIA NACIONAL É MUITO BAIXA'

Idade: 42 anos

Salário líquido: 900 euros

Horas trabalho: 35 Horas semanais

Hobbies: Passear com a família

Nos raides nocturnos das quintas-feiras, em busca de caçadores furtivos de javalis, as batidas do seu coração disparam. José Rodrigues nunca sabe o que vai encontrar pela frente. A sua potente ‘shotgun’ costuma impor respeito, mas há caçadores que reagem aos tiros assim que vêem as fardas dos guardas florestais a assomarem atrás das folhagens dos pinheiros bravos.

“Já morreram colegas meus quando os tentavam apanhar em flagrante”, conta José Rodrigues, que já levou muitos deles para a barra do Tribunal. A caça e a pesca ilegal dão direito a pena de prisão, mas, em geral, os infractores safam-se com uma multa pesada. “Ficam mais chateados quando lhes apreendemos o material, porque lhes custou rios de dinheiro.”

Aos 42 anos, José é mestre florestal principal – o mais novo do país. A sua vida mudou de alto a baixo, em 2002, transferiu-se da mata de Monsanto, em Lisboa, para o Centro Aquícola da Azambuja. Depressa percebeu que a harmonia de árvores, pássaros e riachos escondia um sem-número de armadilhas: incendiários, proprietários de sobreiros, caçadores e pescadores sem escrúpulos. “Se contar com os riscos que corro, talvez seja mal pago”, anui. “Mas a média salarial nacional é muito baixa.” A profissão já viu melhores dias. Um decreto-lei recente prevê a extinção do Corpo Nacional de Guardas Florestais. Os 500 civis serão integrados na força militar da GNR. Quando? “Ninguém sabe. São estas incertezas que não nos deixam satisfeitos”, resume.

Enquanto o futuro não se resolve, José e os seus colegas preparam-se para mais uma investida. É época da lampreia. Está na hora de caçar os prevaricadores que usem redes demasiado estreitas para a pesca deste ciclóstomo viscoso. A ‘shotgun’, os binóculos, o GPS e o mapa cartográfico estão ali à mão de semear.



CARLA BRANDÃO, CANTONEIRA

'HÁ SETE ANOS FAZIA-ME IMPRESSÃO O MAU CHEIRO'

Idade: 33 anos

Salário líquido: 520 euros

Horas trabalho: 35 Horas semanais

Hobbies: Não tem

A franzina Carla Brandão conhece bem os cantos de Alhos Vedros, na Margem Sul. Com a ajuda do carrinho de mão ou da varredora mecânica, ela varre as ruas, limpa as sarjetas, apanha as ervas daninhas. Faz o trabalho que a maioria desdenharia. “Há sete anos, quando comecei, o mau cheiro fazia-me impressão. Agora estou mais habituada”, confessa. Ainda assim, tem por hábito tomar um duche depois de se desfardar.

A cantoneira de 33 anos só não se acostumou ainda à má educação de alguns munícipes, que chegam a deitar os restos para o chão mesmo à sua frente. Tem de respirar fundo para não lhes gritar na cara uma palavra feia. “Há quem tenha medo de sujar as mãos e de meter o lixo nos contentores. Deixam tudo sujo para nós limparmos. O cheiro atrai os cães que deixam tudo numa balbúrdia.”

Carla está no segundo escalão e tão cedo não poderá subir ao terceiro porque tem a carreira congelada, como tanto outros funcionários públicos. E nem quer saber do recibo do ordenado no próximo mês. “No ano passado, fui aumentada 3,5% e ganhei mais 7,5 euros. Este ano, com os 1,5%, nem devo chegar aos 5 euros.” Como o salário do marido não é muito diferente, ela chega ao fim de cada mês com o credo na boca. O dinheiro dá para as contas correntes e para pagar a matrícula da escola dos dois filhos. Nada mais. “Não consigo poupar. E já tive de recorrer ao crédito pessoal, depois da operação do meu marido. Esgotei o saldo de todos os cartões de crédito”.

A ADSE não se estendeu ao cônjuge, mas já a ajudou nas quatro cirurgias que fez ao pulso, talvez derivadas do esforço do seu trabalho. Não é canja a vida de cantoneira. “Ando a estudar à noite, no 9.º ano, apenas para me realizar. Porque quero continuar a ser cantoneira. Tenho orgulho na minha profissão.”



CÉLIA ANTUNES, PROFESSORA

'HÁ MUITA GENTE A PENSAR QUE TAMBÉM TEMOS FÉRIAS DE TRÊS MESES'

Idade: 30 anos

Salário líquido: 1150 euros

Horas trabalho: 35 Horas semanais

Hobbies: leitura

É uma professora atípica. Célia Antunes não teve de carregar com a casa às costas, como a maioria dos colegas em início de actividade. Em 1998, quando começou a dar aulas, ficou logo colocada na escola mais próxima de casa, em Oeiras. A sorte não mudou nos anos que se seguiram. Também não a veremos nas ruas a protestar contra as aulas de substituição, o alargamento do horário lectivo ou o encerramento das escolas no interior do país.

“Compreendo os meus colegas, mas acho que até devíamos ter mais horas de trabalho nas escolas. Assim, tudo o que fazemos estará à vista. Quando estou em casa a corrigir testes ou a preparar as aulas até às tantas ninguém o sabe”, explica a professora do ensino básico da Escola Orlando Gonçalves, em Alfornelos. Os pais continuam a ter a ideia, errada, de que os professores dos seus alunos trabalham pouco. “É triste. Há muita gente a pensar que também temos férias de três meses.”

Numa escola, rodeada pelo cimento sem alma das torres suburbanas, costumam desaguar os problemas sociais do costume: “Já senti agressividade de alunos que vêm perturbados com problemas de casa.”

Os dramas sempre tiveram final feliz. Pelo menos até agora. Nas escolas, sente-se que falta um pouco de tudo: desde um simples aquecedor a um assistente social. Muitas vezes, são os professores quem veste a farda de pai, psicólogo ou especialista informático. “Somos pau para toda a colher”, queixa-se. Ela estima que por cada dez colegas no activo, nove estejam desmoralizados. “Eu devo ser uma minoria”, brinca. Este ano, Célia não passará para o 5.º escalão, como esperava, mas não se preocupa demasiado com o assunto: “Se quisesse ter uma vida mais desafogada teria escolhido outra profissão.”



MARGARIDA COSTA, ENFERMEIRA

'TENHO UMA PROFISSÃO DE GRANDE DESGASTE'

Idade: 45 anos

Salário líquido: 2000 euros

Horas trabalho: 42 Horas semanais

Hobbies: Tocar flauta

No bloco de partos do hospital de Garcia de Horta nasceu Filipe, um bebé com 2,700 kg. As enfermeiras acotovelam-se para poderem observar de perto o recém-nascido de pele arroxeada, de poucas lágrimas. Filipe é mais uma vitória, num bloco onde são assistidas as mulheres com os partos mais problemáticos da Margem Sul do Tejo. “É sempre uma emoção quando nasce uma criança, por mais anos que se trabalhe na obstetrícia”, conta Margarida.

Ela é enfermeira há 25 anos. E como quase todas as colegas, começou a trabalhar em dois hospitais. Durante dois anos, chegou a acumular 80 horas por semana, para poder comprar a casa e o carro, sem se afogar em créditos. “Nunca ia abaixo.” Com 45 anos de idade, faz metade desse regime, mas continua a sobrar-lhe pouco tempo para a família e amigos. Margarida é solteira e não tem filhos, mas salta à vista desarmada o seu instinto maternal quando pega no recém-nascido ao colo: “Aprendi a não ter uma ligação muito próxima com os doentes. Mas dói-me na alma quando vejo nascer um bebé deficiente ou quando tenho de anunciar à mãe que o seu filho morreu.” Muitas vezes, os pequenos dramas vividos nos corredores do hospital entram-lhe pela casa adentro e avivam-se durante as noites mal dormidas. Mas mesmo nos momentos mais conturbados, nunca pensou em desistir da profissão: “Se estou mais em baixo, peço para trocar as folgas e ficar uns dias em casa.”

Já viu colegas a irem-se abaixo, pela pressão, ou a viverem sob os artifícios da auto-medicação: “Tenho uma profissão de grande desgaste e por isso acho injusto que tenhamos de nos reformar aos 65”, diz depois de entregar o pequeno Filipe aos braços da sua mãe.



SÉRGIO CARVALHO, BOMBEIRO

'OS VOLUNTÁRIOS NÃO TÊM FORMAÇÃO TÃO INTENSA'

Idade: 33 anos

Salário líquido: 900 euros

Horas trabalho: 35 Horas semanais

Hobbies: não tem

Não foi no meio das labaredas de um incêndio florestal que Sérgio Carvalho viu a sua vida a andar para trás. O dia em que se confrontou com a morte parecia até rotineiro. Ele e os seus colegas do Regimento de Sapadores Bombeiros foram chamados para acudir um homem com febres altas, que acabaria por morrer. Quando o médico do INEM chegou ao local, fez um aviso que lhe gelou a alma: teriam de fazer análises ao sangue.

A vítima havia chegado recentemente de um país africano, suspeitando-se que contraíra uma doença altamente contagiosa. “Ninguém imagina o que é chegar a casa com uma notícia destas, tendo a mulher e o filho à espera ” O cenário mais negro não se concretizou. Mas todos os dias, quando acorda, Sérgio tem a noção de que não existe no mundo profissão mais arriscada do que a sua. “Estamos em constante perigo”.

Quando ouve a sirene a soar na cidade, sabe que tudo pode acontecer: dum gato numa árvore a uma fuga de gás.

Na sua companhia há 140 homens, divididos por quatro turnos. Vivem num regime quase militar, intenso, ao contrário dos voluntários, que trabalham em ‘part-time’: “Não há rivalidade entre nós, mas eles não têm uma formação tão intensa.” O equipamento é mais moderno do que aquele que os seus chefes usavam em tempos, mas ainda pesa mais de vinte quilos. “Ninguém faz ideia do que é andar a subir e descer escadas ou carregar com idosas obesas com isto às costas.”

Sérgio sabe que quando chegar aos 60 anos sofrerá de artroses e problemas respiratórios, tal como os seus colegas mais velhos. Mas prefere não pensar nisso. Aos 33 anos tem um leque de ambições pela frente. Para já, aguarda a abertura de um concurso para sub-chefe de 2.ªa classe, que lhe poderá dar direito a um salário de mil euros, limpos. Não é uma fortuna, mas já ajuda a pagar muitas contas.



VÍTOR FILIPE, AGENTE DA PSP

'CONCORDO COM CORTES NA FUNÇÃO PÚBLICA'

Idade: 27 anos

Salário líquido: 900 euros

Horas trabalho: 42 Horas semanais

Hobbies: Jogar Playstation

O Agente Vítor Filipe salvou a vida a um miúdo de 12 anos quando fazia a ronda habitual na zona de Santa Apolónia, em Janeiro. Ele viu um rapaz em chamas, em cima de uma vagão de mercadorias na estação de comboios. Sofrera uma descarga eléctrica de uma cantenária. De imediato, saiu a correr do carro-patrulha, tirou o casaco, saltou para a carruagem, embrulhou a vítima, levou-a em braços e chamou o INEM.

Só não terá sofrido também uma choque porque o quadro eléctrico rebentou. “Eu poderia ter morrido electrocutado pelas cantenárias. Só depois do salvamento é que pensei no assunto.”

A rotina de um agente não é igual a quem passa o dia sentado numa secretária. Mas o seu salário não é assim tão diferente. “Gosto muito de ser polícia, embora não tenha sido amor à primeira vista”, conta Vítor Filipe enquanto faz a ronda habitual pela feira da ladra. Os seus olhos estão atentos aos produtos vendidos nas bancas: livros, DVD, quinquilharia, roupa usada. Alguns vendedores olham-no com desdém: “Mesmo que haja quem não goste de nós, ninguém imagina uma sociedade sem polícias. Quantos mais formos, maior segurança haverá.”

Não deve ser fácil adaptar-se a um horário com turnos e patrulhas pela noite dentro. Ainda não tem mulher e filhos à sua espera, talvez por isso encare a profissão com uma natural leveza de espírito. “Gosto de andar na rua, contactar e ajudar as pessoas.” Só não se imagina sentado numa secretária, num aborrecido trabalho administrativo. Mas com o avanço da idade da reforma esse será um destino mais do que certo. Não se assusta com o cenário: “Concordo com os cortes na função pública”, confidencia. “Já deveriam ter sido feitos há mais tempo.”



ANTÓNIO CORREIA DE CAMPOS, MINISTRO

'SOMOS MAL PAGOS PARA A FUNÇÃO QUE TEMOS'

Idade: 63 anos

Salário líquido: 2700 euros

Horas trabalho: 50 Horas semanais

Hobbies: Andar a pé

Aos 63 anos, Correia de Campos conta com 40 anos de função pública nas pernas, quase sempre ligado à área que hoje tutela, a saúde. Este ano, também ele foi aumentado em 1,5% e perdeu poder de compra. Sabe disso mas não se queixa.

Ao contrário de grande parte dos colegas do Estado, não vai alinhar em ‘manifs’ contra as medidas draconianas do (seu) Governo. No entanto não esconde que gostaria que os altos dirigentes da administração pública, como os directores-gerais, ministros e deputados, ganhassem um pouco mais. “Somos mal pagos para a função que temos.”

Correia de Campos faz rápidas contas de cabeça e chega à conclusão de estar a perder dinheiro: o seu salário é mais baixo do que quando era professor. “Mas não me queixo excepcionalmente. Até porque não sou um homem de grandes vícios”.

O ministro da Saúde não tem dúvidas de que os funcionários públicos, até 2002, tinham regalias a mais: “Havia um excesso de garantismo. As medidas deste Governo vêm repor o equilíbrio entre o sector público e o privado e controlar a espiral de despesas do Estado”, argumenta.

O seu discurso divide-se entre o de governante, bastante pragmático, e o de funcionário público, um pouco mais condescendente: “Compreendo os lamentos dos trabalhadores. Tinham a expectativa de se reformar aos 60 anos ou com 36 anos de serviço. E de repente, tudo isso foi por água a baixo.”

Na sua extensa carreira pública, até tem uma internacionalização no currículo: o Banco Mundial, nos Estados Unidos, entre 1992 e 1995. “Percebi que no estrangeiro a função pública é muito diferente nos métodos de trabalho. A gestão é mais moderna e competitiva. Devíamos aprender com eles.”

O ministro socialista que tutela o sector da Saúde neste governo, liderado por José Socrates, não o disse preto no branco, mas talvez não se importasse de assinar por baixo uma das mais famosas cartilhas liberais: menos Estado, igual a melhor Estado. Para que conste.
Hugo Franco

In CM (Revista Domingo) Hoje
 
citação:Calcula-se que um terço das despesas correntes do Estado sirva para pagar os ordenados de funcionários públicos. O Governo quer inverter a tendência com a modernização na administração pública – que por sinal poderá custar aos contribuintes 136 milhões de euros.

Então e o resto?
 
Um terço para pagar vencimentos, mais um terço para pagar os chorudos subsídios variados dos FP e o terço restante deve evaporar-se...
 
citação:Originalmente colocada por Excalibur

Pé Leve o meu Up e essa noticia não foi inocente, e preparou o terreno para esta que só agora ficou disponivel OnLine.

Para que conste estas são as minhas três citações preferidas do texto, havia mais mas estas chegam:


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In CM (Revista Domingo) Hoje
Apesar de (muito) curto é um excelente retrato descritivo!...:)

[^][^][^][^][^]
 
eu por mim tranformava isso numa formula.
80% do crecimento do ano anterior.
e pronto estava resolvido e as pessoas a sabiamcom o que contar.
Parece-me justo, mas dever-se-íam ter em consideração os ganhos de produtividade e a inflacção!... Onde é que eu já ouvi isto?...[:D] [;)]
 
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