Percebo o que queres dizer. As nossas decisões de investimento, consumo, etc, devem ajustar-se à realidade e ser independentes da nossa visão das coisas. Pela simples razão de que o mundo é como é e não como nós achamos que devia ser. Mas atenção, por alguma razão até ao início do séc. XX a ciência económica tinha o nome de "Economia Política". E não há Economia sem política económica. Alias, esta questão das tarifas é um exemplo acabado da importância da política na Economia. É impossível ler a Economia sem ler a Política.
Eu também tenho as minhas opiniões e percebo que querer fazer da economia uma ciência exata e não uma disciplina intimamente ligada à politica é algo que vale o que vale. A questão é que analisar as coisas dessa forma só me levou a fazer porcaria. Maus timings, apostas em cavalos errados, apostas nas quedas durante as recuperações, apostas nas recuperações quando era só um ressalto.
A determinada altura decidi que tinha de tirar o lado emocional da equação e concentrar-me 100% naquilo que são dados que eu sei e conheço e 0% no que acho que vai acontecer. Então passei algum tempo a desenvolver uma folha no Excel, que uso para determinar onde é que todos os meses reforço as minhas posições e quando é que é preciso rebalancear algum dos componentes. Ao longo do tempo fui fazendo algumas melhorias, abandonei fundos e ações e passei 100% para ETF's pelos custos e conveniência
Não é nada de muito esotérico, no fundo tenho um portfólio com ETF's regionais que cobrem mais ou menos o equivalente ao MSCI ACWI IMI, mas com ponderações ligeiramente diferentes, porque as percentagens de alocação partem da capitalização bolsista, mas depois tenho sobre ou sub exposição com base em alguns fatores de valor. Sendo a ideia investir mais em regiões que estão historicamente baratas e menos nas que estão historicamente caras. Depois tenho uma parcela em bonds, sendo que a alocação destas é calculada com base em duas coisas, na minha idade, de forma a ter +/- 60/40 quando chegar à idade da reforma e com base nas valorizações dos índices mundiais, para ter mais ou menos obrigações conforme os mercados de ações estão mais ou menos valorizados em relação às medias históricas.
É claro que momentos como este são um grande teste à disciplina e já me apeteceu fazer várias coisas fora do plano, mas por outro lado é o verdadeiro teste à robustez da coisas e na verdade cheguei a Fevereiro de 2025 com cerca de 44% da minha exposição de ações nos EUA em vez dos 62% "naturais" e cheguei com mais de 40% de obrigações do que o normal atendendo à sobrevalorização dos mercados, o que agora faz com que as minha quedas neste momento sejam muito inferiores a um SP500, um MSCI World, ou um FTSE All-World e tenho no lado das obrigações "cash" que poderei gastar a investir em ações quando os indicadores de valorização derem o sinal que é altura de rebalancear nesse sentido.
Embora não seja boa ideia, aposto que diariamente o fazes, mesmo que inconscientemente.
Diga-se que na realidade tu próprio (e muito bem) deste uma opinião politica ao afirmar que "já tens muitos países a conformarem-se e a procurar negociar.".
Não há decisões económicas sem politica. E não há decisões politicas sem economia. Quando decides meter dinheiro no Sp500 e não no índice chinês tens por trás decisões politicas também.
Neste caso em concreto é a primeira vez em 100 anos em que a crise dos mercados é provocada única e exclusivamente por uma decisão politica de uma pessoa.
Por isso a solução será também ela politica. Não vejo neste caso em concreto como se pode dissociar a opinião politica do futuro dos mercados e das decisões de investimento.
Nunca como hoje os mercados estiveram nas mãos dos políticos ou de um politico.
Uma simples frase de Trump hoje pode fazer subir os mercados 20% em minutos.
Podemos no fim dizer que a longo prazo é indiferente... em minha opinião neste caso nunca o será se as tarifas não voltarem ao que estavam ou perto disso.
Obviamente a nossa visão das coisas, e a minha em particular molda também os investimentos para o bem e para o mal. (não há como fugir disto também). A minha visão da politica atual é o que está refletido atrás, e influencia quer eu queira quer não o que vou fazer nos mercados.
Por exemplo no imediato fez com que o dinheiro que tenho disponível não compre nada, mesmo estando o mercado "barato" aparentemente. E porquê? Porque politicamente não confio em Trump. E embora eu ache que os EUA vão te problemas graves, não tenho certeza que Trump mude em breve.
Como explico em cima, já há algum tempo que procurei "automatizar" ao máximo as minhas decisões de investimento, com regras baseadas 100% em dados, por forma a não permitir que as minhas crenças, opiniões ou percepções influenciem as minhas alocações.
Mas como é óbvio não deixo de ter opiniões e de tentar perceber o que se passa no mundo. Não acho é que se deva investir com base nisso porque é muito fácil estarmos errados ou termos apenas uma visão parcial das coisas.
Mas já que insistes, posso dizer-te duas coisas:
1º Eu só vi medidas do tipo tit-for-tat da China. De resto, vários países, como a Austrália, Suíça, Uk, Malásia, etc... anunciaram que embora desagradados iam negociar sem retaliação, outros como a Índia, Vietname, Japão, embora não se comprometendo sobre se vai haver ou não retaliação, já disseram que nesta fase só pretendem negociar um acordo justo. A própria UE, apesar de ter voz grossa a falar de retaliações, na prática ofereceu um acordo de livre comercio para bens industriais, que já de si é uma brutal cedência em relação à sua postura histórica, e o anunciado pacote de medidas retaliatórias de grande alcance que estava prontíssimo para ser lançado parece que afinal não gera sequer consenso entre os 27 e a haver alguma coisa nunca será antes de Maio ou Junho, sabemos também que nos próximos dias a Meloni vai aos Eua fazer uma operação de charme.
Não quero com isto dizer que não seja expectável mais reações de retaliação e contra retaliação nos próximos meses. Mas certezas absolutas de que vai acontecer isto ou aquilo, nem eu, nem tu podemos ter. O que há até agora, factualmente, é um pais a retaliar e os outros globalmente a colocar-se em filinha para irem a Washington negociar.
2º O que não falta na historia são situações de guerra e conflitos. E isto é o que é, não com confrontos físicos, mas com outras formas de luta para tentar alterar os equilíbrios mundiais que existiam. Nestas alturas é natural a volatilidade disparar e com demasiada gente a agir de forma precipitada e emocional, até uma qualquer noticia falsa pode fazer grandes movimentos nos mercados. Mas isto está absolutamente longe de ser uma novidade. Aliás, nem precisamos de sair de Portugal, já tivemos um banco que, também num momento de volatilidade e medo extremo, simplesmente teve de ser "resgatado" de forma precipitada por noticias comprovadamente falsas de um canal de TV.