Há algumas teorias, que eu acho que fazem sentido, segundo as quais o nível base de juros na próxima década será consideravelmente mais alto do que foi na década de 2010-2020. Os níveis de défices relativamente altos, dividas a bater recordes de forma consecutiva, os incrementos de gastos militares, os planos de investimento e estimulo em curso quer no bloco euro, quer nos EUA com a BBB do Trump, etc.. etc.. etc.. contribuem para prémios de risco acrescidos e alguma inflação, que não estando descontrolada como em 2022-23, mantem-se persistentemente alta. Por exemplo, se leres na imprensa especializada, começa a haver algum consenso de analistas que acham que as taxas de juro do BCE em 2030 andarão em torno dos 2.75% a 3%, ao contrário da percepção da rua ou da imprensa generalista que olha para os últimos 6 meses e já imagina que isto agora é sempre a descer.
Obviamente, as projeções de longo prazo seriam super interessantes se os pressupostos fossem sempre constantes, acontece que o mundo está sempre a mudar e os imponderáveis sempre a acontecer.. Pelo que são projeções que valem o que valem, não são suficientemente fidedignas para apostar a vida nelas, mas não deixam de ter o seu valor ao mostrar o caminho que o mundo está a seguir.
Isto leva a crer que a década de m.... muito má das obrigações, que culminou com o pior ano de sempre em 2022 depois de 10 anos quase sem rendimento, chegou definitivamente ao fim e volta a ser interessante ter obrigações num portfólio, não só pelo hedge contra crises, mas também pelo rendimento.
O que escolher depende dos teus objetivos, se clarificares o que esperas dessa parcela do portfólio, tudo se tornará clarinho.
Se o teu objetivo é única e exclusivamente hedge contra crises, acrescentar estabilidade e proteção contra quedas ao portfólio e potencial para fazer rebalanceamenentos oportunísticos quando os índices de ações caem mais de 20 ou 30%, então acho que deves procurar um mix baseado essencialmente em obrigações de governo de curto prazo, algumas ligadas à inflação e algumas corporativas, sem exposição cambial.
Algo como isto, pode ser uma boa base de partida:
| CBE3 | Obrigações Gov. EUR Curto Prazo | 40% |
| VECA | Obrigações Corporativas EUR | 30% |
| IBCI | Obrigações Gov. EUR Indexadas Inflação | 30% |
Ficas com uma duration media que deve rondar os 3 a 4 anos, o que te protege de eventuais subidas bruscas das yelds, a componente de bonds corporativas traz rendimento extra e ficas muito bem protegido da inflação, quer pelo rápida rotação da carteira do CBE3, quer pela indexação das obrigações do IBCI. Podes alterar o mix entre as corporativas e as governamentais de curto prazo para aumentar ou diminuir o risco e o retorno.
Se a intenção não for fazer rebalanceamentos e estiveres disposto a maior volatilidade podes ir para um ETF' aggregate, como o VAGF, ou uma solução 100% EURO com algo como VGEA 60% +VECA 40%. Ai terias potencialmente maiores rentabilidades de longo prazo, igual proteção contra crises, mas a maturidade média saltaria para uns 7 ou 8 anos o que tornaria a tua carteira muito mais sensível aos choques nos juros ou no risco de crédito.
Também poderias optar por uma solução com maturidades por camadas que permite ir ajustando aos riscos de juro, com 30 ou 40% em corporativos euro, e o resto distribuído por exemplo pelos iShares Euro Government Bond 1-3yr UCITS ETF (Acc) e iShares Euro Government Bond 3-7yr UCITS ETF (Acc) e o iShares Euro Government Bond 7-10yr UCITS ETF (Acc), alternando o mix conforme o risco for mais de os juros subirem ou descerem. E conforme o teu próprio horizonte temporal, sendo que os prazos maiores têm maior rentabilidade, mas maior sensibilidade a mudanças dos juros e dos prémios de risco. Mas para mim já começa a ser muita complexidade, gosto mais de um mix fixo, que se possa implementar e esquecer.
Risco cambial, honestamente não faz sentido acrescentar na parte de protecção da carteira, estás a introduzir mais um risco, que no longo prazo não dá rentabilidade só acrescenta volatilidade. Pelo que sou de opinião que para alguém na Europa, o que faz sentido será sempre ou bonds em EUR, ou hedged ao EUR.
Obrigações high yield, mercados emergentes e afins, honestamente não aconselho. Apesar de nos períodos de expansão terem rentabilidades muito interessantes, nos períodos de crise podem cair mais de 20% com facilidade. Para isso vale mais investir simplesmente em índices de ações.