Estar a limitar estas operações a uma espécie de "armadilha para enganar investidores de retalho", parece-me uma visão extremamente limitada e que ignora por completo as dinâmicas destas empresas. Sem questionar, que como é óbvio, cada um está a zelar pelos seus interesses particulares, e o Elon Musk, também estará naturalmente a fazer pelos seus interesses e pelos interesses dos investidores iniciais e não pelos interesses dos reformados ou dos investidores em ETF's, sendo que os investidores de retalho, também devem olhar para os seus interesses com cautela.
O que eu vejo é uma mudança estrutural: industrias como a IA ou a exploração aero espacial, exigem níveis de investimento de capital e anos de investigação absolutamente inéditos até começarem a gerar níveis mínimos de receita e perspectivas de rentabilidade, pelo que no momento em que chegam ao publico através destes IPO's já têm uma dimensão absolutamente massiva e sem paralelo na historia. A Tesla já foi um exemplo atípico de necessidades brutais de capacidade antes de ser rentável, mas ainda assim, as empresas de IA ou de exploração espacial, estão noutra dimensão.
Estas IPO's, pela sua dimensão absolutamente anormal também não podem ser ignoradas pelos índices. É preciso ter consciência da função de um índice, eles não são construídos para serem uma estratégia de investimento, servem para medir o mercado bolsista. E um sistema que pretende ser a métrica do mercado, não pode ignorar empresas com a dimensão da SpaceX, uma empresa que chegará ao mercado com 1,77T USD de capitalização.
Embora a SpaceX falhe métricas para inclusão em alguns dos índices, o expectável é que ao longo de 2026 esteja em todos, porque ninguém pode dizer que o seu índice representa o mercado e deixar de forma uma empresa que vai ter um peso tão importante. O Nasdaq como se sabe já redefiniu as regras para acomodar esta IPO, o MSCI e a FTSE usam regras mecânicas, pelo que será muito rápida a inclusão (dias ou semanas no máximo), já no S&P500, que costuma ser o mais rígido, muito provavelmente vão usar mecanismos de fast track para a adicionar ao longo dos próximos meses. Acho altamente improvável que essa inclusão não ocorra em todos os índices globais ainda em 2026 apesar de métricas habitualmente exigidas por alguns deles, como os 4 trimestres de lucro, obviamente não serem cumpridos.
Por outro lado, as regras desenhadas pelo Elon Musk também mostram a força que advém de um IPO desta dimensão e impõem regras pouco habituais para evitar o pump & dump das ações logo nos primeiras semanas típicos dos IPO's. Os insiders detentores de ações, terão regras bastante mais restritas para libertar as suas tranches e que estendem as restrições durante anos, quando o habitual é restrições de algumas semanas até no limite 180 dias. Sendo que as tranches dos insiders, no primeiro ano, só podem ir sendo libertadas em pequenas percentagens e sempre condicionadas à cotação ser superior ao preço do IPO.
A conjugação disto tudo, vai levar a efeitos práticos que serão interessantes de ir seguindo....
Nos primeiros dias o hype massivo, conjugado com o free float minúsculo, de cerca de 4%, pode gerar fenómenos de volatilidade extrema. Ao longo do ano à medida que for incluída nos índices e à medida que os insiders forem sendo autorizados a libertar ações aumentando assim o free float vamos por um lado ver uma pressão vendedora, mas por outro lado veremos obrigatoriamente os ETF's a terem de fazer uma pequena rotação de outras ações em direção à SpaceX para ir mantendo a proporção da sua capitalização ajustada ao free float do mercado.
Tudo isto são efeitos especulativos a que um investidor de retalho pode ou não querer estar exposto, tendo em conta o histórico dos IPO's, até acho natural que muitos se queiram manter longe, mas ao contrário do que os videos do "fim do mundo dos indices e dos ETF's" tentam fazer crer no Youtube, é preciso ter calma e ver as coisas com alguma perspectiva:
Para quem tem os seus investimentos em ETF's globais, basta olhar para os números e antes de mais perceber que a inclusão nos índices é feita pela dimensão do free float e não pela capitalização bolsista total. Isso acontece porque olhando para o exemplo da SpaceX, se os índices incluíssem a empresa à dimensão total, iria diretamente para o top juntamente com empresas como a Microsoft, Meta ou Amazon e como apenas vão ser libertadas 4% das ações no IPO simplesmente não haveria ações suficientes para serem compradas e elas iriam subir a preços absolutamente ridículos.
E essa diferença entre a capitalização e o free float faz toda a diferença, a SpaceX não vai chegar aos índices como uma empresa de 1.77T$, mas sim como uma de 75B$, o que é totalmente diferente, num indice como o MSCI ACWI (ou FTSE AW), o peso expectável da SpaceX no inicio será na casa dos 0,05% do índice e o impacto para os seus detentores será quase invisível. Só à medida que os períodos de lock-up forem expirando e os investidores iniciais forem libertando tranches adicionais de ações (admitindo que o fazem) é que o peso poderá ir subindo e atingindo valores que se esperam que estabilizem em torno dos 0,6% a 0,8% do índice. Em indices como o Nasdaq e o SP500 o peso será obviamente superior.
Não deixa de ser uma mudança de perfil de risco para quem investe habitualmente no beta de mercado, já que as grandes empresas costumam ser empresas altamente rentáveis e com modelos de negócio estabelecidos e maduros e agora vão passar a ter uma fatia de investimento em empresas deficitárias que apostam tudo no hiper crescimento, com consumos de capital absolutamente massivos, dependentes de tecnologias que ainda não sabemos para onde vão evoluir, com perspectivas quase nulas de distribuírem dividendos nas próximas decadas. Além disso há aqui a introdução do Key Man Risk, com a estrutura da SpaceX que dá direitos de controlo vitalício ao Musk, passamos a ter um risco que tradicionalmente só acontece nas empresas familiares, mas que no universo das empresas do Musk é um risco real: a dependência do homem-chave. Se um dia destes lhe dá, p.ex. um ataque cardíaco, as ações das suas empresas vão ter volatilidade extrema.
Pessoalmente eu vejo isto só como uma curiosidade. Transitei há alguns anos de uma estratégia de tentar adivinhar coisas, para uma estratégia 100% rules-based de exposição sistemática aos vários fatores de risco do mercado. E a minha exposição ao beta de mercado tem uma alocação central de 22,5% do meu investimento em ações, pelo que a minha exposição a este fenômeno será absolutamente incipiente empresas como a SpaceX só entrarão no "radar" dos outros fatores em que invisto quando tiverem perfis de rentabilidade ou tendencias de subida sustentáveis, e não no pico do hype dos primeiros dias.