Não me parece que o AV seja fascista. Aliás a principal característica do AV é uma completa ausência ideológica, é plástico politicamente falando. Basta ler alguma coisa da tese de doutoramento dele para perceber a personagem política que criou e que é radicalmente diferente e até contraditória da que depois o tornou "conhecido" ainda no PSD na campanha em Loures. Que é a questão dos ciganos. Em que, a verdade, é que 90% dos portugueses concordam com 100% do que ele diz, mesmo que não concordem com o tom ou a forma. E que é um dos maiores fuel do crescimento do Chega no Alentejo e no Algarve.
Contudo, boa parte do núcleo duro da militância Chega é saudosista do Estado Novo. Esse eleitor que é residual sempre andou meio escondido e envergonhado, seja em locais obscuros de pequenos partidos, seja no CDS.
Não é por acaso que o AV abriu o discurso no domingo com "isto é um ajuste de contas com o pós-25 de Abril" e a sala ficou em êxtase. Disse-o com um objectivo específico e para um público específico. Que estava ali.
Que a dimensão actual da representação social do Chega vai muito além disso, é óbvio.
Neste momento o eleitor mediano (sentido estatístico) do Chega é o descontente de classe média baixa, branco, homem, instrução até ao 12º ano e emprego pouco diferenciado. Isto não é um fascista. Isto é o português mais comum, até. Trabalhador urbano ou rural. Que tanto vota Chega, como antes votava PS ou PCP, consoante a região onde vive e o histórico familiar. Que mete a carteira facilmente à frente de princípios abstractos de valores de democracia liberal, como é perfeitamente natural no seu contexto.
E se fores ler o programa de 2019, 2022 e 2024 vês essa evolução. A deixar cair as medidas mais polémicas, a ficar mais mainstream. De cortar no Estado para engordar o Estado. Do partido que queria acabar com o SNS ao partido que promete mais Estado em todo o lado, aumento generalizado de pensões para o SMN. Tudo em menos de 4-5 anos.
O Chega é um partido populista e de protesto. É conservador. E tem uma índole nacionalista na sua base (cada vez mais fraca).
Mas a grande revolução que está a fazer no sistema político português foi ter retirado à Esquerda comunista, e agora ao PS, o voto trabalhador, dos mais pobres, dos que se sentem injustiçados com o sistema.
Outra coisa socialmente a encaixar aqui bem é como no Norte o Chega tem os piores resultados, exactamente por não há o feeder da Extrema Esquerda e há historicamente muito mais facilidade do voto trabalhador ir para a direita tradicional.
O ridículo de se continuar a narrativa da extrema direita é que para isso ser verdade fica algo difícil explicar que onde o Chega é mais forte são bastiões tradicionais da esquerda, Alentejo, margem sul, áreas suburbanas de Lisboa sobretudo.
Passou tudo de extrema esquerda ou esquerda para a extrema direita? De comunas para fascistas?
Obviamente que não. A dicotomia do esquerda e direita faz cada vez menos sentido para tentar enquadrar esta população e até o sistema político.
Hoje a principal diferença do que distingue as posições políticas faz-se entre conservadores e liberais, seja socialmente seja economicamente, a velha dicotomia da esquerda / direita pouco nada bem explica já.
A ilusão do Chega do “descontentamento” (msn.com)
Muitos dos abstencionistas que votaram domingo no Chega eram-no há vinte anos ou mais. Grande parte da raiz desse partido advém de dois lugares para os quais se olha menos nos media:
1) O de um movimento populista, extremado na Europa que surge solidificado num grande e concertado bloco em que uns ou outros se financiam e apoiam. André Ventura não é uma personagem menor neste enquadramento. Líder hábil, tem o apoio e está bem alavancado por todas as personagens relevantes globalmente aqui.
2) O outro lugar que vai ao encontro dos tais antigos abstencionistas portugueses que referenciei no início do artigo é o dos saudosistas do antigo regime, sem qualquer apego à democracia por melhores ou piores soluções que esta lhes dê. Durante anos, estiveram à margem do debate político exatamente por isso e naturalmente que não se trata de um fenómeno exclusivamente português. Pelo contrário. Por essa Europa, existem ligações históricas ao fascismo, com mais ou menos narrativas falsas marteladas hoje e através de todos os mecanismos subvertidos numa nova extrema-direita muito bem financiada. É por isso normal o porto seguro em personalidades históricas como Salazar. Passa de geração em geração e cria-se uma espécie de nostalgia de um país que só existiu para a realidade deles.
André Ventura sabe que a raiz do Chega é aí e também por isso, nunca foge muito dela.
Estes saudosistas do salazarismo valem os seus 10% no partido e hoje como ontem, vivem através das bandeiras da luta contra a corrupção, da podridão da política e por cá, têm apoios de peso mais ou menos camuflados como o herdeiro da Jerónimo Martins que ainda recentemente surgiu com a mesma cassete ignorante e riscada contra tudo o que é político e no julgamento do trabalho executivo destes. Santa ignorância de quem nada sabe a não ser do mundo que lhe foi herdado e que nem o mínimo do
give back da escola americana tem. Se o tivesse, perceberia que o mínimo era pagar impostos em Portugal. Como dizia um grande empresário português recentemente e de forma corajosa: as nossas fracas elites financeiras e económicas muitas vezes falham bastante mais do que as políticas.
Lessem mais livros!
Claro que há população descontente e não é pouca. Com razão de o ser e é preciso saber ir ao encontro de todas as pessoas, melhorando as suas vidas. Mas a ilusão ou os ossos do ofício dessa crença como parece existir tanto na cabeça de um político como Carlos Moedas ou de outro como Pedro Nuno Santos, na qual a melhor governação no espaço democrático acabará com todo este fenómeno e até com o crescimento da extrema-direita nalguns aspetos, é pura ignorância e ausência de mundividência. Bastaria olharem para alguns dos países mais bem governados, onde existe menor desigualdade, mais crescimento económico e a forma igual ou parecida como cresce o fenómeno através do ódio, narrativas falsas e do revisionismo histórico.
Não, a extrema-direita é em grande parte uma realidade que tem de ser combatida e desmantelada na sua raiz. Isso passa por expor e denunciar tanto as fontes do seu financiamento, a sua infiltração nalguns setores determinantes e criar legislação digital que permita combater a sua penetração através de todo um chorrilho de informação falsa nesse espaço. Apoiar o jornalismo factual e democrático.
Não se quis debater e perceber durante esta campanha o porquê de tantos ex-ministros queimados em lume brando durante anos na opinião pública, acabarem totalmente ilibados de um processo judicial e onde nem sequer foram ouvidos. Ignorou-se o processo que ditou a queda deste governo e as próprias trapalhadas em que está metida a Procuradora-Geral da República por causa dele. Cedeu-se perante a sua postura de inimputável que levou a que passados quase 5 meses, nenhum dos envolvidos do governo tivesse sequer sido chamado. Estamos nisto. Outra vez.
Fizemos o jogo da Mariana Mortágua e do André Ventura que querem amarrar os políticos a uma espécie de fascismo, comunismo ou trotskismo onde não conversam, almoçam ou fazem pontes com empresários. Ou onde são meros bonecos, até que o Chega chegue ao poder e seja o mais corrupto e perigoso deles todos. É sempre assim quando a extrema-direita vai para o governo.
Tivemos a sorte de ser um dos últimos países europeus em que o novo fenómeno da direita radical aterrou. Larguemos a lengalenga de que tudo começa e acaba na resolução do descontentamento. Não é assim e isso nem sequer existe assim.
Comecem pelo que custa mais. Desmantelar e reconfigurar todos os setores onde a nossa já está infiltrada, corroendo o próprio país. Verão que tudo o resto virá por acréscimo.
O contrário é deixarmos de ser o que somos.
Sim, o meu próximo artigo é exatamente apontar para onde estamos. Em termos sociais, económicos, de segurança como um dos países mais atrativos do mundo, de investimento público, atração de investimento estrangeiro e até de economia das famílias. Para poder voltar aos mesmos indicadores depois da descida vertiginosa a que vamos assistir.
Sempre em conta-corrente a esta ideia do Chega do “descontentamento”. Uma caracterização que tanto pode fazer rir, como chorar, tal é a ingenuidade que carrega.