Ota: «Estão a mentir-nos»
Ota: «Estão a mentir-nos»
«A Portela é um aeroporto de extraordinária navegabilidade, um dos melhores da Europa, "classe 3b"», afirma o professor Castro Henriques. «Tem um regime de ventos óptimos, com uma pista de 3260 metros. Até podiam fazer uma segunda pista na Portela em direcção a Figo Maduro, se prolongassem os chamados táxis ways», explica.
A hipótese de expansão entra numa «zona de barracões. Não se perderia muito do ponto de vista paisagístico ou urbano».
«O lobby político social não encontra barreiras e vai fazendo o que quer», mas o facto é que, por exemplo, «a Portela tem duas pistas e o aeroporto é tão bom que, em 95 por cento dos casos, só se usa a pista maior. Só quando há ventos cruzados se recorre à outra».
O professor reconhece que é preciso um novo aeroporto para Lisboa, no entanto defende que os avanços «quer de gestão, quer de tecnologia mudaram o transporte aéreo» e podem levar a outras escolhas. «Há cinco anos não se pensava que os motores dos aviões iam ser silenciosos. E há 5 anos ninguém fazia ideia da expansão das companhias
Low-cost».
«Há estudos alternativos para o Montijo, Tires, Sintra, Rio Frio, Beja. Podem ser aproveitados». No fundo o que "incomoda" o professor é o facto de «terem sido tomadas decisões ao longo anos, ao arrepio de todos os pareceres técnicos ou mesmo sem pareceres técnicos».
Portugal sem sistema de transportes integrados
Apesar de não ser técnico, o director do Departamento de Investigação de Defesa reconhece que ao falar «com eles (técnicos)», foi percebendo que Portugal não tem um sistema de transportes integrados: aeroportuários, ferroviários e portuários.
Na Ota, por exemplo, nunca poderá haver uma estação de comboios no aeroporto «como acontece nos melhores e mais modernos da Europa». Como a infraestrutura fica num leito de cheias é impossível uma linha ferroviária entre as pistas, que permita fácil acesso e serviço para os utentes. «A paragem terá de ser a três ou quatro quilómetros e os passageiros vão perder tempo no percurso».
A comparação com os transportes espanhóis é inevitável no livro. Por exemplo, «eles decidiram a alta velocidade (TGV) em 1986, quando entraram para a União Europeia. Nós ainda estamos nos traçados», defende.
«Vamos ter um gráfico de comparação com Espanha e é muito engraçado. Porque eles "decidiram" e "adjudicaram". Nós fizemos "reuniões" e "comissões"», termina.
Consciente da sua posição no Instituto de Defesa Nacional, o professor faz questão de ressalvar que o seu interesse pela Ota é «a título particular e não como fazendo parte de uma instituição».
O interesse pela Ota nasceu há pouco tempo e Mendo Castro Henriques deixou-se seduzir pela grande oposição em torno do novo aeroporto de Lisboa. «A comunidade científica tomou uma posição de cidadania - contra - e isso é uma novidade», confessa ao
PortugalDiário.
Quanto mais falava com engenheiros, geólogos ou ambientalistas mais este director do Instituto de Defesa percebia que «a Ota é um caroço muito desagradável, quase um tumor. Por todas as deficiências e desvantagens que apresenta em relação à Portela e às outras possibilidades de localização» a Ota parece-lhe que devia ter sido a última escolha. «Porquê esta fixação na Ota?», pergunta.
Mendo Castro Henriques é doutorado na área da Filosofia, docente da Universidade Católica e, desde 2003, dirige o Departamento de Investigação de Defesa, do Instituto de Defesa Nacional. Para Abril, está prevista a publicação, pela editora Tribuna, do seu livro provisoriamente intitulado «Ota não! Portugal sim!». Um trabalho que vai reunir pareceres de toda a comunidade científica sobre o projecto.
Navegabilidade
«Por que é que a Força Aérea nunca aproveitou a Ota e mandou as esquadras de caças para Monte Real? Por que é que a Ota tem a pista mais comprida do país, 3600 metros?». «Pelas dificuldades de navegabilidade», em muito originadas pelo Monte Redondo explicou ao docente da Católica o Major General Kruz Abecassis, licenciado em engenharia e ligado à Força Aérea, onde desenvolveu vários estudos sobre navegabilidade dos aeroportos militares.
O professor Castro Henriques explicou também ao
PortugalDiário que «nunca foi instalada uma estação meteorológica para conhecer os dados exactos da região». O que se sabe é por fontes indirectas e estas são claras: «A Ota tem um regime de ventos complicados, tem nevoeiros e uma exposição de luz solar incomparavelmente inferior à Portela».
E a insegurança dos aviões sobrevoarem zonas de Lisboa a baixa altitude? «Falso argumento». De acordo com o actual projecto do novo aeroporto da Ota «os aviões vão passar no Carregado como passam agora em Lisboa. A cidade tem já 30 mil habitantes, que podem duplicar, e prédios de 12 andares. Aí já não há perigo de queda?», questiona.
«Preparem os hidroaviões»
«Mas a Ota tem mais problemas», continua o professor, «um estudo de António Brotas, engenheiro do Instituto Superior Técnico, mostra que as pistas vão precisar de drenagem». A área é pluviosa, com uma concavidade. «Os poços de brita costumam ser usados nestas situações, mas aqui as três ribeiras em redor não desaparecem e pode acontecer como no túnel do Terreiro do Paço. O lodo sobe pelos poços e a água não desce. Ou seja, preparem os hidroaviões», afirma ironicamente.
Em seguida, o autor do livro recorda que o aeroporto vai ser construído «em leito de cheias o que vai exigir a remoção de um volume de terras equivalente a um campo de futebol com 13 km de altura».
«Estão a vender-nos uma mentira e é preciso que as pessoas saibam isso», acusa o professor. Há especialistas que defendem que «a saturação da Portela é uma campanha de desinformação total e que esta tem possibilidades de expansão» continua.
«Na Ota conseguiu-se fazer tudo errado, o que só mostra os interesses brutais que estão lá e aqui para a urbanização da portela».
Fonte:
PortugalDiario