É fácil esquecer como o
boom do vinho alentejano é uma coisa relativamente recente. Começa a sério na segunda metade da década de 1980, penso eu. Antes disso, quando eu era criança, recordo-me de que o vinho que se bebia entre o povão na região em que eu vivo (Sintra) era na base do garrafão e, quando muito, da garrafa "estrela" de litro com cápsula de plástico, na maior parte vindo do eixo Torres Vedras-Arruda-Sobral-Bombarral-Alenquer-Cartaxo. Uma marca que vi muitas vezas era a "Quinta da Cardiga", que hoje jaz abandonada na Golegã.
E esse tipo de produção, como o oversaturn já referiu, ainda sobrevive. Numa mercearia de bairro mesmo ao pé de minha casa vi no passado fim-de-semana esta relíquia de tempos idos:
http://www.santosesantos.pt/vinho-moleiros-garrafa-tinto2.html
É verdade... as primeiras recordações que tenho dos vinhos alentejanos serão dessa altura, também, umas tantas marcas da zona de Borba, Reguengos e arredores. No final dos anos 90, já o Monte Velho era campeão de vendas.
A esse eixo que descreves, acrescentaria ainda Almeirim. Um membro da minha família era dono de uma "Casa de Pasto" - no fundo, um restaurante de petiscos que também servia almoços aos trabalhadores da zona. Obviamente servia-se também muito vinho a copo - dantes era coisa de taberna, hoje em dia fazer tal é apelidado de "gourmet" ou "delicatessen"! [

] Lembro-me perfeitamente das excursões a essas zonas, quase sempre Arruda, Cartaxo ou Almeirim, onde ele ia para encontrar e contactar os fornecedores...
Na região vinícola "Lisboa" há quem sofra com este tipo de preconceitos e há quem beneficie deles. Que eu saiba, há pelo menos três engarrafadores de grande volume nesta região que vendem bag-in-box e até garrafas de vinho de mesa com a palavra "Pias" no rótulo e onde não deve entrar nem uma gota de verdadeiro vinho de Pias. Algum até diz "Vinho da UE" em letras miudinhas.
Custa a perceber porque os produtores de Pias não reagem contra isto. Mas enfim, outras histórias. Peço desculpa pela digressão.
A distinção entre "DOC" e "vinho regional" no Alentejo já tem pouca relevância do ponto de vista comercial. Um exemplo: o Tapada de Coelheiros é "vinho regional". As zonas DOC foram delimitadas quando a viticultura no Alentejo ainda não tinha atingido a escala que hoje tem. Daí que eu pense que os produtores alentejanos pudessem fazer um pouco mais de uso das denominações de sub-região que têm ao seu dispor. Um vinho feito no estilo da região de Arronches ou Portalegre, delgado e suave como um Dão, pode ter pouco a ver com os vinhos habitualmente mais substanciais de Reguengos, Redondo ou Borba.
Os vinhos da zona de Portalegre/Serra de S. Mamede são qualquer coisa de diferente do Alentejo típico, sim.

E pessoalmente esse perfil de vinho a fazer lembrar o Dão é muito mais o meu estilo.
Mas de facto, os estatutos da região estão muito desactualizados, para não dizer obsoletos. Daí a proliferação da designação "Vinho Regional Alentejo". Porque o Alentejo está na moda, e para vender, nem é preciso mais: a palavra "Alentejo", só por si, vende.

E o utilizador comum, muitas vezes, não liga nem dá importância a essas "subtilezas "(VR vs DOC), se é que se apercebe delas de todo - e a verdade é que por vezes têm uma relevância relativa.
Quanto às Pias... por exemplo,
neste caso, obviamente tratar-se-á de um lagar com muitas pias, pois claro...! [

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