La nouvelle Clio ou La nuova Clio?
Mais uma vez, os franceses (ou neste caso, um holandês em França) a puxarem da sua costela latina.
A relação dos construtores franceses com o estilo italiano é longa e distinta.
A Citroen recorre a Bertoni (não confundir com Bertone) para criar uma deusa, pede "emprestadas" à Pininfarina as linhas que marcaram o GS e CX, e Bertone dá as linhas ao BX e traça o Xantia.
A Peugeot teve longa relação com Pininfarina que deu criaturas elegantes, distintas e marcantes ao longo de décadas, culminando no perfeito 406 Coupe.
A Renault, curiosamente, tem sido a francesa com menos influências italianas. Tirando a década de 80, onde Giugiaro pôs o dedo no Renault 21 e 19 e o Super5 desenhado por Gandini, a marca tem seguido o seu próprio trilho. Mostrou provas de grande originalidade nos anos 90, sob a direcção de LeQuement, mesmo que não tenha encontrado o consenso geral.
E agora, esta aproximação ao sul com o novo Clio.
A influência do estilo italiano já vocês repararam, com as comparações efectuadas em relação a Alfa Romeos e também Seat's, pela definição de alguns elementos.
O puxador nas portas traseiras sempre pode ser justificado pela ausência de uma versão de 3p (a ser colmatada pelo "ressuscitar" do retro-chic 5), conseguindo simular a maior limpeza e leveza de uma carroçaria 3p com a praticalidade de 5p.
A escolha de farolins horizontais na traseira remetem para o universo Alfa e Seat recente, e no geral, todo o carro expressa uma personalidade bastante mais latina que aquela que os seus antecessores alguma vez tiveram.
Como pormenor cronológico, este Clio foi desenhado antes do Dezir, pelo que a influência do Dezir no Clio é inexistente.
Talvez o aspecto mais interessante do novo Clio esteja nas suas superfícies.
Como se pode observar vincos é coisa que não existem nesta carroçaria. As transições entre orientação de superfícies é nada mais que arcos ou raios de circunferência.
Faz lembrar em parte estilo "bolha" do Clio II, só que neste Clio as transições são bastante mais expressivas e dinâmicas, sobretudo as que encontramos por cima dos eixos, com ombros musculados e robustos favorecendo a pose, sem dúvida ajudado pelas rodas generosas que encontramos nas imagens oficiais.
Toda a escultura assume contornos mais orgânicos, como se tratasse de um bloco único esculpido. Percepção que nem sempre é evidenciada nas criaturas preenchidas com vincos ou arestas definidas. Exceptuando as arestas que delimitam os facetamentos dos arcos das rodas, dificilmente encontramos arestas dignas desse nome na restante carroçaria.
A traseira resulta, pelo menos nas imagens, convincente. Consegue características tridimensionais q.b, criando maior coesão com a frente.
Esse aspecto 3d é conseguido graças ao prolongamento dos "músculos" traseiros e a modelação à volta dos grupos ópticos.
Nem sempre as traseiras conseguem o mesmo nivel de dedicação que as frentes no que toca a styling, mas no CLio, nota-se esforço nesse sentido.
No outro extremo do carro, encontramos a nova face da Renault. Tenta integrar num único elemento, grupos ópticos, grelha e simbolo.
Mas os anos 80 já foram à muito tempo atrás e em vez de um rectângulo a integrar todos esses elementos, encontramos algo de recorte complexo, adaptando-se aos elementos que o preenchem. Continua o traço mais orgânico que encontramos na restante carroçaria.
O resultado final geral é bastante conseguido, tal como nos concepts e no Zoe de produção. E permite liberdades estilisticas, que permitem manter o look de familia e garantir a identidade única de um modelo, pelo que me parece ser uma excelente solução para a futura identidade da marca.
No Clio, é mais convencional que aquilo que vimos no Zoe e sem ser tão interessante com o que vimos no Dezir, mas mesmo assim, apelativa.
Não é perfeito. A meu ver, encontro problemas com o preenchimento e dimensão de alguns elementos.
Os faróis são 1 a 2 números acima. Os bigodes cromados ou coloridos não fazem lá nada.
Tal como a parte inferior do párachoques traseiro, ou aquilo que vimos no Dezir, poderiam ter resolvido o preenchimento deste elemento frontal de forma mais original, limpa, simples e eficaz.
Mesmo os faróis seguem a "moda" de complexidade em excesso no preenchimento do seu miolo. A influência da joalharia na definição das ópticas continua a ser considerável.
Fossem mais pequenos e de miolo mais simples, pelo menos graficamente, poderiam ter impacto mais distinto. Mais uma vez, o Zoe parece-me mais equilibrado nesse sentido.
O outro grande pormenor discutivel é, na lateral, toda a sua zona inferior, que substitui os tipicos frisos ou protecções em plástico.
Até posso compreender a "reinvenção" desse elemento, numa tentativa de melhor integração com o todo. Mas o resultado final é discutivel.
A modelação na carroçaria fica com contornos estranhos.
Ao contrário da bem conseguida modelação sobre os eixos, a light-catcher que é formada no topo superior deste elemento, em determinados ângulos, e sobretudo nas imagens tiradas na rua, parece forçosamente esticada sobre o elemento preto, como se não fizesse parte do todo.
Falta definição e propósito na integração deste elemento.
Talvez se não existisse cor abaixo deste elemento, sendo parte da base e o seu topo fosse menos arqueado e mais triangulado (como se vê em alguns sketches), a coisa poderia resultar melhor.
Também estranho é o pormenor da janelinha no pilar C. Dificilmente contribuirá para melhorar a visibilidade traseira, até tendo em conta o como a linha base das janelas sobe ao chegar ao pilar C. Serve de bom remate visual da área vidrada, mas é curioso terem optado por vidro em vez de uma "tampa" de plástico, dado as contenções de custos e de se tratar de um utilitário. Resulta, sem dúvida, dando aspecto mais cuidado que algum bocado plástico alguma vez conseguiria (basta ver a lateral de um Cruze sedan, por exemplo).
Mas não deixa de ser estranha esta opção.
No global, é talvez, visualmente, a geração de Clio mais interessante.
Sem dúvida, a mais expressiva.
Pessoalmente, escolheria outro tipo de jantes. Com uma carroçaria orgânica como a que possui, as jantes caracterizam-se por serem planas, apostando apenas no grafismo do seu desenho, e na dúbia personalização colorida das mesmas. Falta modelação.
No interior, pessoalmente, e tal como no Zoe, não vou à bola com a consola central, no sentido em que a mesma parece simplista, com uns elementos colocados em cima dela, apenas porque sim. Contrasta com a complexidade orgânica exterior. Tentaram dar alguma piada com os contornos cromados e uma forma mais irregular, olhando para a base.
O problema é mesmo esse: é demasiado perceptivel o esforço de a tentar torná-la interessante. Tal como o elemento na lateral, acaba por parecer demasiado forçado, sem fluir e integrar-se naturalmente no todo.
Ao contrário do que vimos no 208, e apesar do Clio recorrer às mesmas entranhas do antecessor, não parece ter havido um trabalho de optimização tão profundo como o efectuado pela Peugeot no que toca a packaging e peso.
Não é mais pequeno, e ainda não sabemos se perdeu uns quilos valentes como o seu rival.
Dado a urgência dos construtores respeitarem as imposições europeias no que toca a emissões, todos os pormenores ajudam. E packagings mais eficazes (a permitirem dimensões mais compactas) associados a peso reduzido, facilitariam o trabalho das novas motorizações no cumprimento dessas imposições.
Neste aspecto, acho que a Peugeot foi bastante eficaz na optimização do seu hardware.
Dado o Clio distar apenas 1 ano do seu rival, deveria ser algo que nos bastidores do construtor deveria já ter sido equacionado e igualmente aplicado.
Sempre serão mais 6, 7 anos até uma nova geração.
Concluindo, visualmente, apesar das criticas feitas, o resultado final global é bastante bom, e a meu ver, ao nivel do que a Peugeot conseguiu com o 208, com a vantagem do Clio parecer-me mais fácil de aceitar, e não sendo menos apelativo por isso, até dado pela maior eficácia geral das suas linhas, no sentido em que se percepcionam como menos complexas, mas com resultados finais convincentes.