Ao fim de 18 mil km roubaram-lhe a bicicleta
Eric Feng pedalou da China até Portugal para unir a memória de dois navegadores. Em Sines roubaram-lhe a bicicleta. Mas não a vontade. Chegou ao fim da viagem e, diz ao Expresso, está feliz.
Há três anos, um administrador de
sites de Internet chinês com o vício dos desportos de aventura começou a construir um sonho com uma pergunta: como unir a memória de dois dos seus exploradores marítimos preferidos, Zheng He e o Infante D. Henrique? A resposta pareceu-lhe óbvia. Eric Feng, 29 anos, decidiu pedalar.
Em abril deste ano, depois de juntar dinheiro e colecionar vistos e autorizações, partiu da cidade chinesa de Kunning rumo ao Cabo da Roca, a ponta mais ocidental da Europa. "Foi uma viagem maravilhosa, uma verdadeira experiência de vida, o realizar de um sonho", contou ao Expresso, já em casa. "Estou muito feliz".
Atravessou dez países, pedalou mais de 18 mil quilómetros, mas a aventura mais estranha estava reservada para o final. Em Sines, durante a noite, roubaram-lhe a bicicleta. "Acabei por ter sorte e fui ajudado por amigos portugueses. Emprestaram-me uma bicicleta para chegar ao meu destino".
Queixa na Polícia é recordação
Chegou há poucos dias a casa. Viajou de avião para a China. A bicicleta ficou cá. "Deixei-a estacionada e, na manhã seguinte, tinha desaparecido. Fiz queixa na polícia e deram-me um papel. Tenho-o aqui na mão. Mas não tenho a bicicleta", queixa-se.
Mais do que como um meio de transporte, Eric Feng usou a sua bicicleta como forma de chamar a atenção do público para o fenómeno das alterações climáticas e das energias sustentáveis.
Feng, solteiro, manteve uma espécie de diário
online da sua viagem (
Life Cycles ???? - com alguma informação em inglês). O furto da bicicleta, por seu lado, já deu origem a pelo menos uma página no Facebook (
Devolvam a bicicleta ao Chinês | Facebook ).
A paixão de Feng. pelos navegadores tem uma explicação geográfica. Zheng He nasceu na sua cidade. "É o meu herói", confessa. O interesse pelos portugueses é uma consequência. "O Infante D. Henrique dedicou a sua vida toda a Portugal. As grandes descobertas marítimas europeias começaram com o projeto de navegação a que ele dedicou toda a sua vida. Por isso ele também é um dos meus heróis", explicou, há meses, numa outra entrevista.
Sonho realizado
Há dez anos, um oficial na reserva da Marinha britânica escreveu um livro sobre as aventuras marítimas chinesas no século XV. Depois de uma vida a comandar submarinos, Gavin Menzies passou mais alguns anos a viajar pelo mundo e a reunir documentação para sustentar a tese principal de "1421, O ano em que a China descobriu o mundo".
Um dos heróis dessas viagens, que segundo Menzies levaram enormes navios de junco a cruzar os mares até à América e à Austrália muito antes dos europeus, foi o almirante Zeng He, nascido em 1371 na cidade de Kunning, capital da atual província chinesa de Yunnan.
Kunning, que vive hoje da metalurgia e da exploração de recursos minerais, tem 2,1 milhões de habitantes. Aquele que interessa chama-se Eric Feng. Em 2013 fará 30 anos. E já realizou um sonho.