A Guerra

Este problema todo da descolonização culminou num massacre muito menos conhecido do publico em geral, no dia 27 Maio de 1977, massacre esse nunca assumido pelo governo Angolano.

Quem se interessa por esta tematica deve visitar este site:

http://www.27maio.org/

Mas isso já foi uma purga realizada pelo MPLA sobre outros membros do MPLA, numa lógica de acesso interno ao poder.

Para isso inculparam-se determinadas fações do MPLA como traidores que queriam assassinar Agostinho Neto. Criaram-se mesmo, no seguimento do 27 de Maio, campos de concentração em Angola onde muita gente morreu sem saber porquê!... Mas isto já era só entre angolanos, incluindo alguns poucos portugueses que optaram pela nacionalidade angolana.

Recomendo a leitura de dois livros surgidos recentemente sobre o tema:

«Nuvem Negra» e «Purga em Angola»

http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?cod_Post=61878&a=129

http://www.webboom.pt/ficha.asp?ID=165530
 
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O problema real que revoltava os negros mais atentos, é que no interior de Angola em muitas fazendas, os negros viviam num regime de exploração próximo da escravatura. O negro era pago, ma era-lhe fabricado um valor superior ao do salário como dívida constante e perene para assegurar dentro da legalidade que ele não poderia abandonar a fazenda, o trabalho, porque tinha uma dívida eterna por pagar...

Além disso, a verdade é que os fazendeiros não eram humanistas: eram pessoas que acreditavam na superioridade rácica branca e não se coibiam de tratar os negros como seres inferiores. Há relatos confirmados de fazendeiros que tratavam situações de furtos ou tentativas de fuga por recurso definitivo a fornos crematórios e a execuções sumárias...


Não duvido que possa ter havido alguns casos de exploração de trabalhadores ainda mais em meados do seculo passado, agora abusos como os que relaste NUNCA ouvi nem nunca li em nenhum lado, se realmente tivesse acontecido o que dizes seria do conhecimento publico, não me parece que seja. Se tiveres referencias gostava de saber.
 
Agem assim, mas às vezes morrem civis... isso é o quê? Negligência?

Só as autoridades competentes é que podem avaliar se há negligencia, abuso de poder, danos colaterais, etc. Se se comprova que há falhas graves os culpados devem ser responsabilizados e condenados... como também o crime deve ser combatido... ainda mais quando se trata de uma carnificina generalizada perpretado por uma minoria terrorista contra populações civis...
 
Mas isso já foi uma purga realizada pelo MPLA sobre outros membros do MPLA, numa lógica de acesso interno ao poder.

Para isso inculparam-se determinadas fações do MPLA como traidores que queriam assassinar Agostinho Neto. Criaram-se mesmo, no seguimento do 27 de Maio, campos de concentração em Angola onde muita gente morreu sem saber porquê!... Mas isto já era só entre angolanos, incluindo alguns poucos portugueses que optaram pela nacionalidade angolana.

Recomendo a leitura de dois livros surgidos recentemente sobre o tema:

«Nuvem Negra» e «Purga em Angola»

http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?cod_Post=61878&a=129

http://www.webboom.pt/ficha.asp?ID=165530

Caro Zen.

Fico feliz por saber que alguem pegou no url por mim postado e esta informado acerca do que se passou. Este assunto n me tocou a mim dado que em 77 nasci, mas tocou pessoas muito proximas, que sim são Angolanos e ke luatavam por uma Angola melhor no futuro, e algumas delas fora presas em campos de concetração dignos do periodo nazi de 1939/45, torturadas e na maioria dos casos assassinadas por razões que a razão desconhece...

Infelizmente milhares "desapareceram" e conforme vem no site "as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet assumem modestas proporções, se comparadas com o que se passou na Angola de 1977"
 
Caro Zen.

Fico feliz por saber que alguem pegou no url por mim postado e esta informado acerca do que se passou. Este assunto n me tocou a mim dado que em 77 nasci, mas tocou pessoas muito proximas, que sim são Angolanos e ke luatavam por uma Angola melhor no futuro, e algumas delas fora presas em campos de concetração dignos do periodo nazi de 1939/45, torturadas e na maioria dos casos assassinadas por razões que a razão desconhece...

Infelizmente milhares "desapareceram" e conforme vem no site "as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet assumem modestas proporções, se comparadas com o que se passou na Angola de 1977"

Afinal de contas parece que a presença das forças armadas portuguesas em Angola ainda servia para manter a paz e a ordem... Pelo que sei dos meus pais e outros familiares e amigos até 1974 havia paz em Angola, o progresso era acelerado, tudo mudou depois do 25 de Abril.
 
Na minha opinião, o regime lidou MUITO MAL com esta questão e o resultado foi catastrófico.

Isto não foi uma questão de Angola ser ou não ser uma parte de Portugal, foi uma questão de saber lidar com os interesses das grandes potências.

Faltou ao regime a capacidade para chegar a acordo com as grandes potências. O Salazar teimou no "orgulhosamente sós" e o resultado está à vista.

Acho que não temos elementos suficientes para poder criticar com justiça a forma como Salazar conduziu o conflicto. Mas parece que em algo estamos de acordo: Portugal foi victima da cobiça internacional.

Também poderiamos dizer que fomos victimas da nossa propria ignorancia, lutamos entre nós quando o mais inteligente seria a pasificação, reconciliação, a união de todos os portugueses de todos os territorios em torno de um interesse comum... fomos em cantigas "separatistas" e o resultado esta a vista. Salazar bem tentou contrariar essa tendencia, mas foi em vão.
 
Como disse, o erro politico que levou a tudo isto foi o facto de Angola não ter um governo regional e ao invés ter sido sempre governada como mais uma provincia de Portugal.
 
O Fernando Dacosta ainda vai para poucos dias o afirmou: Costa Gomes percebeu em tempo útil que a única forma de impedir uma guerra em Angola era nomear Agostinho Neto como governador de Angola ocidental, Jonas Savimbi governador de Angola oriental, e permitir que se fizesse uma transição de poder faseada no país.

Salazar e os seus conselheiros políticos sorriram a Costa Gomes e disseram-lhe que ele só podia estar a brincar...

Anos mais tarde, Marcelo Caetano confidenciaria a um amigo que houve um homem que fizera uma proposta que poderia ter evitado a catástrofe angolana, mas que não o levaram a sério, sendo agora (ao tempo da conversa de Caetano) demasiado tarde até para as ideias geniais...
 
O Fernando Dacosta ainda vai para poucos dias o afirmou: Costa Gomes percebeu em tempo útil que a única forma de impedir uma guerra em Angola era nomear Agostinho Neto como governador de Angola ocidental, Jonas Savimbi governador de Angola oriental, e permitir que se fizesse uma transição de poder faseada no país.

Salazar e os seus conselheiros políticos sorriram a Costa Gomes e disseram-lhe que ele só podia estar a brincar...

Anos mais tarde, Marcelo Caetano confidenciaria a um amigo que houve um homem que fizera uma proposta que poderia ter evitado a catástrofe angolana, mas que não o levaram a sério, sendo agora (ao tempo da conversa de Caetano) demasiado tarde até para as ideias geniais...

Mas isso deveria ter sido feito muito antes do aparecimento dessas personagens e muito menos com eles.

O Governo local deveria ter sido criado na epoca de paz, antes de comecar o insurgimento dos turras.
 
Não duvido que possa ter havido alguns casos de exploração de trabalhadores ainda mais em meados do seculo passado, agora abusos como os que relaste NUNCA ouvi nem nunca li em nenhum lado, se realmente tivesse acontecido o que dizes seria do conhecimento publico, não me parece que seja. Se tiveres referencias gostava de saber.

Mendes77, o sistema de exploração que descrevi não era uma excepção: foi a regra até ao rebentar da guerra. E isso foi-me contado pelo meu avô, que aventureiro e caçador, viveu longos anos em África, no Congo, Angola, África do Sul, Quénia e Moçambique. A amizade entre ele e um fazendeiro do café do norte de Angola acabou quando ele decidiu queimar vivo um negro suspeito de roubar farinha do armazém da fazenda. Os negros assassinados neste contexto eram sistematicamente dados como fugidos e desaparecidos pelas autoridades oficiais que sabiam perfeitamente o que sucedia.

Havia impunidade nos abusos, que como sabes para causarem revolta e sentimento de injustiça e humilhação não precisam de ser regra (afinal aos produtores agrícolas não interessava a extinção da massa laboral...), bastando apenas ocorrerem como crimes sem punição para serem retidos na memória e motivo de vingança futura. Sobre esse fazendeiro posso ainda dizer-te o seguinte: quando começou a revolta da UPA, foi dos primeiros a ser feito em picado (e quantos outros inocentes terão pago pelos seus actos bárbaros e criminosos perpetrados durante décadas!...), mas à família e a um seu irmão foi permitida a saída com vida, pois era sabido que o seu irmão se opunha a tais métodos e conseguiu várias vezes impedir os actos criminosos do irmão. Esse reconhecimento pelos trabalhadores da fazenda valeu-lhe o poupar da vida e daqueles a quem ele pediu para poupar.
 
Mas isso deveria ter sido feito muito antes do aparecimento dessas personagens e muito menos com eles.

O Governo local deveria ter sido criado na epoca de paz, antes de comecar o insurgimento dos turras.

Como disse, essa proposta foi feita por Costa Gomes antes do começo da revolta, da guerra, pois ele sabia que em Angola havia uma bomba-relógio pronta para explodir!

Os dirigentes políticos portugueses é que foram cegos e não o levaram a sério! Anos mais tarde, no final da década de 60, foi quando Caetano deu a conhecer como lhe era amargo verificar que uma ideia tão boa foi desprezada sem a mínima reflexão. Agora, mesmo para ideia tão boa, era demasiado tarde, pois tinha-se idoi demasiado longe na violência e no ódio de parte a parte...
 
Mendes77, o sistema de exploração que descrevi não era uma excepção: foi a regra até ao rebentar da guerra. E isso foi-me contado pelo meu avô, que aventureiro e caçador, viveu longos anos em África, no Congo, Angola, África do Sul, Quénia e Moçambique. A amizade entre ele e um fazendeiro do café do norte de Angola acabou quando ele decidiu queimar vivo um negro suspeito de roubar farinha do armazém da fazenda. Os negros assassinados neste contexto eram sistematicamente dados como fugidos e desaparecidos pelas autoridades oficiais que sabiam perfeitamente o que sucedia.

Havia impunidade nos abusos, que como sabes para causarem revolta e sentimento de injustiça e humilhação não precisam de ser regra (afinal aos produtores agrícolas não interessava a extinção da massa laboral...), bastando apenas ocorrerem como crimes sem punição para serem retidos na memória e motivo de vingança futura. Sobre esse fazendeiro posso ainda dizer-te o seguinte: quando começou a revolta da UPA, foi dos primeiros a ser feito em picado (e quantos outros inocentes terão pago pelos seus actos bárbaros e criminosos perpetrados durante décadas!...), mas à família e a um seu irmão foi permitida a saída com vida, pois era sabido que o seu irmão se opunha a tais métodos e conseguiu várias vezes impedir os actos criminosos do irmão. Esse reconhecimento pelos trabalhadores da fazenda valeu-lhe o poupar da vida e daqueles a quem ele pediu para poupar.


Posso considerar essa possibilidade como um caso raro, não como uma realidade diária em Angola. Supondo que esses abusos aconteceram, eles seriam limitados. Mesmo admitindo que tenha acontecido será que justificava a carnificina de 1961 contra populações civis(branca e negra... sim porque muitos negros também foram masacrados)?
Seria motivos suficientes para abandonar Angola e seu povo?

Foi só Portugal "abandonar" Angola para ela entrar numa guerra civil de 30 anos... Que conclusão podemos tirar disso? Que a culpa foi de Salazar? Que Salazar errou na avaliação da situação africana?

Se Salazar tivesse seguido as recomendações de Costa Gomes será que resolvia o problema? Será que evitava a luta pelo poder em Angola? Certeza absoluta? Não há como saber.

Sobre as origens do odio dos turras acredito que deveu-se em parte a “propaganda do ódio” que fora semeadas nas mentes desses infelizes. As “estratégias divisionistas” existem, e quanto mais ignorantes as vitimas mais fácil a manipulação.
 
Como disse, essa proposta foi feita por Costa Gomes antes do começo da revolta, da guerra, pois ele sabia que em Angola havia uma bomba-relógio pronta para explodir!

Os dirigentes políticos portugueses é que foram cegos e não o levaram a sério! Anos mais tarde, no final da década de 60, foi quando Caetano deu a conhecer como lhe era amargo verificar que uma ideia tão boa foi desprezada sem a mínima reflexão. Agora, mesmo para ideia tão boa, era demasiado tarde, pois tinha-se idoi demasiado longe na violência e no ódio de parte a parte...


Não me parecem justas as críticas dirigida a forma como Salazar conduziu o problema de africa, segundo a opinião de algumas pessoas Salazar deveria ter dado a independência (descolonização suave) aos territórios ultramarinos (ou “colónias” como preferires chamar) já na altura das independências cedida por outros governos europeus. Aos que defendem tal ideia gosta de perguntar:

Em que medida essas “descolonizações” foram absolutamente necessárias e favoráveis aos povos desses territórios ao ponto de servirem de exemplo para Portugal? Quais as consequências?

Só depois de ver devidamente respondidas essas perguntas é que podemos julgar melhor o caminho seguido pelo governo português.

Tanto quanto eu sei algumas das independências consideradas “exemplares” para não falar das outras acabaram mas tarde ou mais cedo em graves conflitos armados pelo poder, guerras civis, depredação das riquezas (pelas “potencias”), lutas étnicas (genocídio) onde muita gente inocente incluído brancos se vira envoltos, morrendo milhões deles, o progresso parou, o que fora construído ao longo de anos de árduo trabalho foi destruído em pouco tempo, em poucas palavras com o fim da “governação europeia”, a destruição e miséria alastrou pelo continente africano.

Se Salazar tivesse cedido Angola e os territórios ultramarinos como defendia muita boa gente será que iria evitar as lutas pelo poder? Analisando outras experiências não acredito. Até poderia ter sido bom para os portugueses de “Portugal”… e os “outros” como ficavam? Como Salazar conciliava os interesses das grandes potencias com os interesses do português do “império”? Não me parece que fosse uma decisão fácil de tomar.

Muito provavelmente aqueles que hoje criticam Salazar o criticariam na mesma se tivesse cedido os territórios de africa. Hoje Salazar seria visto como um covarde que abandonou seus compatriotas, um traidor que vendeu seu pais… Acho sinceramente que Salazar fez o que lhe competia, Salazar fez a sua parte, e lavou as mãos.

A prova que atesta a “honestidade politica” de Salazar esta a vistas de quem quiser ver:

Hoje em dia Africa é assolado pela fome, guerras, genocídio (graves conflitos étnicos entre tribos) … Apenas para citar um entre muitos exemplos da tragédia africana: no Ruanda segundo dados oficias foram massacradas perto de 500.000 pessoas em poucos meses…
No tempo da governação europeia não havia a fome e destruição que há hoje.
Hoje em Africa morre-se aos milhões principalmente devido as guerras (entre negros) Entendes?
Sobre os “abrilistas”… não é preciso falar muito… Deves conhecer melhor a obra deles mais do que eu.
 
A série é bastante interessante, e mostra aspectos que certamente deixarão muitos boquiabertos.

Desde a frieza dos relatos do membros da UPA envolvidos nos massacres de 1961, à resposta que isso originou.

Mas será bom que vejam que esses acto visou, não só, brancos apelidados de colonialistas mas também muita população negra que tinha vida estável, e não era necessário que trabalhassem para colonialistas, bastava que não alinhassem nas pretensões da UPA.

E a UPA movia-se por interesses de quem e de que organizações politicas ?
Será que era a libertação do jugo colonialista, ou seriam os interesses de outras nações ?


Presumo que talvez possam faltar relatos como este

HISTÓRIAS SECRETAS DA PIDE/DGS: a guerra de África

1961: ano que marca o início do conflito nos territórios africanos.
Em Angola dá-se o arranque de toda uma situação só terminada após a queda do regime em 25 de Abril de 1974.
Vejamos o que sobre África e a guerra travada nos diz Óscar Cardoso, ex-inspector da PIDE.

ENTREVISTA COM ÓSCAR CARDOSO

Bruno Oliveira Santos: Como é que viveu o início do terrorismo em Angola?

Óscar Cardoso: Quando o terrorismo começa em Angola, eu estava ao serviço da GNR. O terrorismo em Angola não era mais nem menos do que a cobiça de quatro potências pela Ágrica Portuguesa: a União Soviética, a China, os Estados Unidos da América e o Vaticano. Os movimentos de libertação eram apenas marionetas manobradas por terceiros.

(...)

B.O.S: O que eram os Flechas?

O.C: Eu fui para Angola em 1966 e, como era normal, fiz um curto estágio em todos os serviços da delegação- investigação, administrativos, etc. Depois disso, o director São José Lopes mandou-me fazer um périplo por todas as subdelegações do território. Isso permitiu-me ter um conhecimento profundo sobre todos os problemas que havia em Angola. A dado momento, fui para o Luso. Quem estava a chefiar a subdelegação era o inspector Fragoso Allas, um homem que traiu a PIDE no 25 de Abril. O Fragoso Allas, que depois desteve na Guiné, dava-se muito bem com o Spínola. No 25 de Abril estava feito com ele. Mas não era o único! O inspector superior Rogério Dias Coelho,
antigo colega de Spínola no Colégio Militar, era outro que tal. No 25 de Abril já estava indigitado por Spínola para ser o novo director-geral!
O Fragoso Allas tinha organizado o chamado Corpo de Auxiliares, indivíduos recrutados e pagos por nós e que eram utilizados como intérpretes, guias e até mesmo como guardas prisionais. Ora, nessa altura eu conheci um velhote- o Manuel Pontes Júnior- que me fala nas Terras do Fim do Mundo, cuja existência eu já conhecia por ser referida em vários livros. Aliás, a designação de Terras do Fim do Mundo é da responsabilidade do Henrique Galvão, que assim as classifica no seu admirável livro Outras Terras, Outras Gentes.

B.O.S: Não estava à espera de o ouvir tecer grandes elogios à obra literária do Henrique Galvão!...

O.C: Eu sei, mas olhe que esse livro é extraordinário! Aliás, as pessoas estão mal informadas sobre o Galvão. Nos seus últimos anos de vida, ele arrependeu-se de tudo, estava mesmo muito arrependido de todas aquelas conspirações. Sabe quem é que pagou o funeral do Galvão? A PIDE. Mas eu estava a dizer que nesse livro do Galvão há referências às chamadas Terras do Fim do Mundo. Nessas terras habitavam os bosquímanos. Eu comecei logo a idealizar o recrutamento desses homens para o Corpo de Auxiliares, até um bocado influenciado pela tropa de guardas de fronteira do KGB. Era conhecido o ódio que os bosquímanos tinham aos negros. Foram sempre escravizados pelos pretos, trocados e vendidos como se fossem objectos ou cabeças de gado. Não era preciso gastar praticamente dinheiro nenhum em alimentação- os bosquímanos encontravam comida em qualquer sítio. Eram rápidos, eram pequenos, conheciam bem o terreno.
Enviei um memorando ao São José Lopes a propor o recrutamento daqueles homens e ele lá me deixou ir para o Cuando-Cubango organizar tudo aquilo. Levei a minha mulher e um velho Land Rover. Foram os melhores tempos da minha vida! Os bosquímanos detestavam mesmo os pretos! Olhe que, ainda em 1969, eram trocados e vendidos a abatidos pelos negros sem dó nem piedade. Bem, comecei por recrutar três ou quatro. No início, utilizavam apenas arcos e flechas, sobretudo flechas envenenadas, o que causava um grande Pãnico entre os turras. É por isso que receberam a designação de Flechas. Comecei a ter bons resultados com a incorporação daqueles bosquímanos, tão bons resultados que cheguei a ter mais de 400 flechas treinados, só no Cuando-Cubango. Mais tarde, criaram-se flechas por toda a província de Angola e em Moçambique.

B.O.S: Eram só bosquímanos?

O.C: Depois foram incorporados homens de outras minorias. Os bosquímanos eram uma minoria do Cuando-Cubango, que era uma savana quase deserta. (...)

B.O.S: Foram recuperados vários guerrilheiros da FNLA, do MPLA e da UNITA?

O.C: Sim, sim. Muitos dos terroristas andavam lá contrariados- eram obrigados a fazer aquela guerra para evitar que as famílias sofressem represálias.

B.O.S: É verdade que Jonas Savimbi foi assistido por médicos do exército português no princípio dos anos 70?

O.C: É. A UNITA tinha sido abandonada pela China e sabia que não tinha quaisquer hipóteses de implantação em Angola sem o nosso apoio. Como aspirava a integrar um futuro governo de Angola, os seus guerrilheiros aceitaram colaborar com o exército português em diversas acções contra os outros movimentos. Vários portugueses com interesses económicos na zona do Luso, sobretudo os madeireiros, pagavam à UNITA para não serem molestados no transporte de mercadorias.
Isto ajuda a compreender as razões pelas quais Jonas Savimbi foi assistido pelo Serviço de Saúde Militar, no Luso. O oficial encarregado das ligações com Savimbi era o major Passos Ramos, da Zona Militar Leste. Foi ele quem tratou de tudo. Já não me recordo da doença de que Savimbi padecia...Julgo que era uma apendicite, mas não tenho a certeza.

B.O.S: A PIDE teve alguma participação no assassínio de Eduardo Mondlane?

O.C: A carta armadilhada que provocou a morte de Eduardo Mondlane foi preparada pelo Casimiro Monteiro, que era de facto um grande especialista em explosivos. Mas o Casimiro Monteiro não agiu sozinho, teve a colaboração do chefe de segurança do Mondlane, o Joaquim Chissano, actual Presidente da República de Moçambique. Portanto, esse trabalho foi feito com a própria Frelimo, que estava muito interessada em eliminar o Mondlane.

B.O.S: Teve acesso aos relatórios sobre Wiryamu?

O.C: Não conheço essa história. De resto, na província de Tete, que eu conheci bem, não existia nenhuma terra chamada Wiryamu. Nem existia em Moçambique nenhuma terra começada por W. Eu não gosto de falar sobre esses assuntos, numa guerra há sempre massacres... O que lhe posso dizer é que nas instruções das Forças Armadas, da PIDE e demais forças da ordem havia a preocupação de evitar os massacres. As instruções eram muito claras: não molestar a população, evitar todo e qualquer tipo de barbaridad, etc. Era exactamente o contrário do que sucedia nos manuais dos terroristas, que aterrorizavam a população.
É evidente que há sempre excepções. Um soldado, cansado de fazer a guerra, farto de ver os seus camaradas estropiados por minas, pode, às tantas, tomar tudo por igual e cometer um erro qualquer...

B.O.S: Que relações mantinha a PIDE com o general Costa Gomes?

O.C: O Costa Gomes era muito amigo do meu inspector superior, Aníbal de São José Lopes. Era tão amigo que, a seguir à revolução, enquanto nós fomos todos presos, o São José Lopes foi mandado para Timor. O Costa Gomes arranjou maneira de ele ir para lá e escapar assim à detenção. Nem outra coisa era de esperar. O São José Lopes conhecia muitos dos podres do Costa Gomes. É que o Costa Gomes prezava muito o dinheiro e falava-se à boca pequena que gostava muito de umas pedrinhas, de uns diamantes, de que o solo angolano é fértil...É muito provável que o São José Lopes estivesse a par de umas negociatas quaisquer.
De resto, as relações que mantivemos com o Costa Gomes, quando ele era comandante-chefe em Angola, foram da maior cordialidade. Não havia festa para a qual não fosse convidado: o Dia do Flecha, o aniversário do São José Lopes, e por aí fora. Foi-lhe oferecido o crachat de ouro da PIDE, que ele aceitou com todo o gosto. Pessoalmente, mantive sempre as melhores relações com ele. Aliás, o Costa Gomes namorou a minha tia, irmã de minha mãe, e tratou-me sempre com muito respeito. Como vê, para além de ter sido meu professor, podia ter sido meu tio.

B.O.S: A PIDE delineou algum plano secreto para matar Amílcar Cabral?

O.C: Não. Assim como lhe disse abertamente que a PIDE colaborou na eliminação de Eduardo Mondlane, também lhe garanto que nunca existiu nenhum plano para matar Amílcar Cabral. Quam matou Cabral foram dissidentes do PAIGC, a PIDE não teve nada a ver com aquilo. Essas histórias estão todas muito mal contadas. E na altura do 25 de Abril havia já um acordo entre o Nino Vieira e o nosso governo para aquele vir para Portugal, com a mulher e a filha, cuja colocação na Universidade estava já assegurada. Ora, quem conta essa história muito bem é o coronel Vaz Antunes, que estava então na Guiné, num opúsculo chamado Uma Diligência Interrompida. Os guerrilheiros do PAIGC estavam cansados, queriam acabar com a guerra e sobretudo não admitiam a sua subordinação aos cabo-verdianos.

B.O.S: A PIDE era um bom serviço de inteligência?

O.C: Como sabe, todas as Forças Armadas têm serviço de inteligência. Em África, a PIDE desempenhou essas funções. O melhor serviço de informação que existia no país era o nosso. A GNR tinha o seu serviço de informação. A PSP tinha também um serviço de informação, mas o melhor de todos era o da PIDE.
Prestámos serviços importantíssimos às Forças Armadas. Salvámos muitas vidas. Alguns dos oficiais que se notabilizaram no 25 de Abril foram salvos pela acção corajosa e abnegada de funcionários da polícia. (...)
Os militares, por natureza, não gostam de informação. Aquilo para eles é uma chatice. Mas a verdade é que o nosso serviço de inteligência funcionava muito bem. É isso que explica que, já depois do 25 de Abril e tendo em conta que as nossas tropas continuavam a fazer a guerra, alguns quadros da PIDE foram libertados para integrar a POlícia de Informação Militar (PIM), então criada.
Os militares revolucionários sabiam perfeitamente que, sem esse serviço de informação, era impossível continuar a guerra. Há até um caso, naturalmente pouco conhecido, mas que vale a pena contar: um dos quadros da PIDE chamado para integrar a nova polícia foi o inspector José Vítor Carvalho. Em 1975, em pleno PREC, foi promovido a inspector-adjunto!

B.O.S: Os serviços de informação da polícia dispunham de informadores nos países vizinhos?

O.C: A verdadeira história das nossas relações com esses países ainda está por fazer. Muito do que se tem dito não corresponde à verdade. O Malawi não nos era hostil. Era-o o Zaire, teoricamente, mas na prática obtínhamos tudo quanto queríamos desse país. De resto, dispúnhamos de vários informadores ao mais alto nível. Na Zâmbia era mais difícil, mas também tínhamos informadores. O mesmo acontecia no Congo-Brazzaville.

B.O.S: E na Rodésia?

O.C: Na Rodésia não precisávamos de informadores porque colaborávamos directamente com o CIO (Central Intelligence Organisation). O mesmo se passava em relação à Africa do Sul: havia uma colaboração estreita com as polícias e os serviços de informação sul-africanos. Repare que todos os países situados entre Angola e Moçambique não nos podiam ser hostis porque a sua sobrevivência dependia dos abastecimentos que chegavam, exclusivamente, pelas linhas férreas da Beira e do Lobito.

(...)

B.O.S: Como é que reagiu à publicação de Portugal e o Futuro do general Spínola?

O.C: Muito mal. Ficámos todos com a sensação de que aquilo era o prncípio do fim. Aliás, não foi o Spínola quem escreveu o livro- foi o coronel Pereira da Costa. O Spínola era um oficial de Cavalaria, era um eguariço, como se costumava dizer. Tinha um vocabulário de duzentas palavras. Não tinha capacidade para escrever nada. Talvez as ideias tenham sido fornecidas pelo Spínola, mas quem redigiu o livro foi o outro.

B.O.S: E como militar?

O.C: Era bom militar.

B.O.S: Acha que sim?! Então não era só fachada? O Spínola era vaidoso como um pavão, dispunha de vários sacos azuis para pagar a sua própria propaganda. Olhe, é à custa disso que ainda hoje o julgam um grande estratega militar...

O.C: Eu conheço essas histórias, mas pelo menos em Angola foi um bom coronel. Era, sobretudo, um militar com prestígio, tinha carisma, era o homem que aparecia lá em cima com pose autoritária, com as luvas e o pingalim... Sabe que as Forças Armadas vivem também da fachada, dos tambores, das cornetas.

B.O.S: Os missionários causavam-lhe problemas?

O.C: Em África, existiam missionários católicos e missionários protestantes. De um modo geral, aqueles que nos eram mais favoráveis eram os católicos. Entre os missionários protestantes havia de tudo- uns eram agentes da CIA, outros do MI6, alguns do próprio SDECE francês...
Lembro-me de que na missão de Catata, perto de Serpa Pinto, existia um missionário que era- soubemo-lo através de intercepção de correspondência- um agente da CIA. Escrevia cartas para os Estados Unidos descrevendo a situação, o ambiente da população, as tendências da população, os ataques, etc. Por tudo o que ele escrevia percebia-se que era hostil à presença portuguesa. Eu fiz esse missionário mudar rapidamente de ideias com a ajuda de alguns flechas. Vesti os flechas com fardas da UNITA e organizámos um ataque à missão: provocámos uns distúrbios, partimos uns vidros. O certo é que o missionário mudou logo de ideias em relação à presença dos portugueses em África.
Lembro-ne também de que existia no Cuando-Cubango, numa terra chamada Chama Vera, uma congregação de frades franceses, na qual seguimos a mesma estratégia. Eles até estavam a fazer uma obra engraçada. Olhe, eram os únicos brancos que falavam correctamente o dialecto dos bosquímanos!
Mas a verdade é que também apoiavam claramente os terroristas: davamlhes roupas, alimentação, etc. E, repare, numa altura em que nós tínhamos já alguns conflitos com a Santa Sé, a simples expulsão desses missionários não era a melhor solução. Era preciso fazê-los mudar de ideias. Organizámos também um ataque, vestindo os flechas com as fardas dos terroristas, e os padres decidiram ir embora...
Mas não se julgue que as missões tinham apenas aspectos negativos. Lembro-me muito bem da madre Cristina, da missão do Cuchi, uma missão linda, muito bem organizada. A madre Cristina era brasileira e dirigia naquela missão várias freiras, que tinham a seu cargo a educação de inúmeras meninas. Uma ou outra vez, os terroristas chegaram mesmo a entrar na missão, tendo mesmo violado algumas meninas. (...)
(...), podemos dizer que os serviços de informação dos diversos países infiltravam agentes seus em diversas missões. Os americanos, os ingleses, os franceses, todos faziam isso. E se calhar o Vaticano também lá devia ter alguns! Aliás o Vaticano tem o serviço de informações mais bem organizado do mundo inteiro!

B.O.S: Qual era a situação militar nas três frentes de guerra, em Abril de 1974?

O.C: Na Guiné, havia um cansaço geral das duas partes. Era a mais dura das frentes de guerra. De qualquer modo, a situação não era desastrosa para os portugueses, como alguns tentaram fazer crer. Havia graves divergências no seio do PAIGC, onde a facção cabo-verdiana, mais intelectualizada, dominava os guineenses, que não se conformavam com essa situação.

Ao contrário do que se diz, nem os terroristas dominavam a maior parte do território, nem as nossas tropas abandonavam algumas zonas em favor do inimigo. O que se passava é que a Guiné não tinha população em várias áreas do interior e, a partir de determinada altura, entendeu-se retirar os militares que ocupavam essas zonas desertas. Os historiadores de pacotilha que temos vêem nessas retiradas a prova de que o nosso exército estava completamente batido. Não é verdade!

Em Moçambique, a situação estava controlada. Havia alguns problemas com os macondes, mas dominávamos o território.
Em Angola, a guerra estava ganha. A UNITA cooperava connosco, o MPLA estava falido e não fazia guerrilha e a FNLA limitava-se a fazer algumas incursões esporádicas no norte.
 
O perfil de Oscar Cardoso.

Depoimento de Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso


Nasci em 10 de Junho de 1935, em Lisboa.


Pertenci à Mocidade Portuguesa, ingressei nesta organização de juventude quando era aluno do Colégio Moderno. Ingressei na Legião Portuguesa quando frequentava o Instituto de Estudos Ultramarinos. Tive que interromper os estudos para prestar serviço militar na Índia Portuguesa, em 1959/60.
Pertenci depois à GNR, até 1965, altura em que ingressei na PIDE.
Em 1966, fui para Angola. Em Serpa Pinto, criei os Flechas inspirado nas obras de Jean Larteguy; Spencer Chapman, “The jungle is neutral”; Lawrence da Arábia, “The seven pilars of wisdom”; Mao Tse Tung, “A guerra revolucionária”; Sun Tze, “ A arte da guerra”.
Em 1968, foi-me atribuído o Prémio Governador-Geral de Angola.
Estive em Moçambique em 1971 e 1972. Em 1973, em Carmona.
Quando regressei a Lisboa, em fins de 1973, com o posto de inspector-adjunto, fui colocado na Direcção dos Serviços de Informação, coordenando a informação em Angola e Moçambique.

Aquando do 25 de Abril, fui preso e permaneci detido em Caxias, Peniche e Alcoentre durante dois anos.

Após ter sido libertado, fui para a Rodésia onde trabalhei na formação dos Sealous Scouts, uma versão rodesiana dos Flechas e no CIO (Central Inteligence Organisation).
Em 1977, fui para a África do Sul, onde servi nas forças armadas, força aérea, saindo com o posto de coronel.
Também trabalhei nos Serviços de Inteligência Militar do Exército sul-africano.

Desempenhei funções como chefe de segurança VIP.

Em 1991, regressei a Portugal.
Em 1992, foi-me atribuída uma pensão vitalícia por serviços relevantes prestados à Pátria. Essa pensão foi-me suspensa recentemente.

1.
Em Angola, comecei por chefiar os Serviços Reservados, em Luanda. Era um trabalho no âmbito da segurança interna. Eram coisas do género: se um indivíduo pretendia tirar uma licença de uso e porte de arma, procurava saber-se se tinha antecedentes criminais.
Depois, passei para a secção de contra-espionagem, um serviço que designávamos por GAB. Aí tinha contacto com informadores estrangeiros e com informação realmente secreta. Permaneci no GAB alguns meses.
De seguida, andei por diferentes subdelegações de Angola, sobretudo onde havia problemas. Acabei por ficar com um conhecimento global da Província, desde Cabinda às «terras do fim do mundo», o Cuando-Cubango. Viria a ficar sete anos seguidos no Cuando-Cubango, um sítio admirável, de onde tenho recordações maravilhosas. Chefiei a subdelegação de Serpa Pinto.

2.
Um dia, em Luanda, conheci o administrador Manuel Pontes. Estava quase na reforma. Falamos prolongadamente. Falamos sobretudo de uma região que ele conhecia muito bem: as «terras do fim do mundo», cognome dado ao Sudeste de Angola por Henrique Galvão, no livro «Outras Terras Outras Gentes».
Disse-me uma enorme quantidade de coisas sobre uma minoria étnica, a que nós chamávamos os bosquímanos, que habitava no Cuando-Cubando. Como eu havia frequentado o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, tinha tido algum conhecimento dessa etnia.
Decidi que iria para esses lugares inóspitos e fascinantes.
O director da PIDE em Angola, Aníbal São José Lopes, concordou e disse-me: «Sim, senhor. Você pega no administrador, damos-lhe uma compensação monetária, e você vai para as terras do fim do mundo fazer uma prospecção sobre o que esses bushmen poderão dar, qual será o rendimento que eles poderão ter em operações de guerrilha.»

3.
E lá fui, com a minha mulher e o administrador Manuel Pontes. Atribuiram-me um velho Land-Rover.
Os bushmen eram indivíduos com uma forma de vida ainda primitiva, faziam ainda o fogo por fricção. Eram muito magros e pequenos, excelentes caçadores.
Na região do Cuando-Cubango, este povo era trocado e vendido como se de gado se tratasse. Muitos eram nómadas e outros escravos dos sobas bantos.
Os bushmen tinham um grande respeito pelo administrador Manuel Pontes e tratavam no por Tata K'Hum, que significa «o pai dos K'Hum», que eram eles. K’Hum é o nome com que os bosquímanos se designam a si próprios. Quando o viam, aproximavam-se. Com a ajuda de intérpretes conseguíamos falar com eles. Eram indivíduos esqueléticos e subalimentados.
Pontes dizia-me: «Se os treinarem, se os alimentarem bem, estes indivíduos podem ser de grande utilidade.» Pela minha parte, e por aquilo
que lera, estava plenamente de acordo. Começámos a dar-lhes treino de tiro, em 1967. Mais tarde, tiveram instrução de Karaté, dada por um mulato nosso amigo que era “cinto preto”. Primeiro, eram apenas oito. Depois eram muitos – a minha infantaria ligeira, ligeiríssima.
No Cuando-Cubango, um território duas vezes e meia maior que Portugal, a PIDE tinha diversos postos chefiados por agentes de 1ª classe, agentes de 2ª classe, chefes de brigada.
Também nos apoiavam nas coutadas de caça. Usávamos os bushmen como pisteiros, no que eram excelentes. Decifravam todos os sinais com uma eficácia extraordinária. Nós aproveitámos essa capacidade singular deles.
Começámos a utilizá-los para obter informação. Conseguiam permanecer no terreno por períodos de tempo incríveis e levando muito poucos meios de sobrevivência com eles. Habituados desde crianças a esgravatar, a viver do nada, tinham uma capacidade nata para se alimentarem, para descobrirem água. Ora, num espaço inóspito como aquele, muito pouco habitado, o menos de Angola, estas capacidades eram de uma utilidade extrema.
No princípio, iam apenas armados de arco e flecha, flechas envenenadas, em que eles eram exímios. Também a sua compleição física não era muito adequada a outro tipo de armas mais modernas. O objectivo era apenas recolher informação mas se a coisa desse para o torto... Quasi nunca traziam ninguém vivo, apenas documentos e armas, por vezes.
Os resultados começaram a ser bastante interessantes. Passámos a poder disponibilizar aos militares uma quantidade e qualidade de informações que lhes permitia operar com maior facilidade e eficácia. Aliás, devo dizer que, na Última Guerra de África, a PIDE funcionou como anjo da guarda das Forças Armadas.
A população era uma espécie de bola de pingue-pongue no meio da guerra. A população que dava apoio aos terroristas era forçada. E maior parte do apoio logístico dos terroristas vinha da Zâmbia.
Os acampamentos terroristas ou ficavam no início do rio ou na confluência de dois rios. E isto era assim porque eles não podiam passar sem água, e também por uma questão de facilidade de referenciação entre eles.
Os bushmen iam lá e, por vezes, eram recebidos a tiro. Então e com apoio das Forças Armadas, começámos a treinar esses bushmen no Cuando-Cubango, no campo de trabalho do Missombo, que tinha sido um campo de recuperação de terroristas, e que nada tinha a ver com a PIDE. O treino consistia fundamentalmente no uso de armas modernas. Conhecimento e táctica do terreno não era preciso – já eram exímios nisso.
Assim se deu início e essa força paramilitar conhecida por Flechas.

Começámos a ter problemas de excesso de voluntários porque muitos queriam pertencer. Como eram escravizados pelos sobas, o tornarem-se soldados fascinava-os. E muitas vezes faziam coisas que não deviam: iam às sanzalas e roubavam galinhas. Evidentemente que quando sabíamos, os castigávamos.
Acabámos por fazer o acampamento do Missombo que tinha na entrada uma frase de Mouzinho de Albuquerque: «Essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que há na História de Portugal contemporâneo, escrevemo-las nós, os soldados, lá pelos serões de África com as pontas das baionetas e das lanças...» Também tínhamos também uma frase de um escritor militar chinês, onde se inspirou Mao Tsé-Tung, o Sun Tsu: «(..) Sejam mais rápidos do que o vento e tão misteriosos quanto a mata. Sejam destruidores como o fogo e silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como o trovão (...)»
Os Flechas iniciaram-se com bushmen, mas depois começámos a tê-los já de outras etnias. Passou, depois, a pouco e pouco, a haver Flechas em toda a Angola. Quase todas as subdelegações da PIDE em zonas onde havia terrorismo passaram a formar os seus próprios Flechas. Os resultados foram sempre bons.
Fiz diversas operações com os Flechas. Algumas eram feitas com europeus, mas havia outrasem que só iam Flechas, bushmen, porque eram operações de longa duração em que se faziam reconhecimentos, nomadizações que os europeus e os pretos não aguentavam.

Quero também dizer desde já que as nossas Forças Armadas venceram a guerra de guerrilha em Angola. Em 1974 a guerra em Angola estava ganha.
O MPLA sabia-se sem qualquer hipótese de vencer, a UNITA era «nossa».
Também a guerra estava a caminho de se vencer na Guiné. Tenho provas disso.


4.
Quero destacar uma operação que foi feita com um indivíduo que mais tarde foi muito conhecido no Cuando-Cubango, o soba Matias – viria a morrer esfolado vivo após a independência por se recusar a arrear a bandeira portuguesa.
Apareceu-me na subdelegação de Serpa Pinto e que me disse: «Olhe, ispector, eu sei onde há, ali a norte do rio Cuvelai, uns acampamentos da UNITA. Os meninos estão fazer muita chatice, muita confusão. O senhor inspector dá-me uma espingarda que eu vai lá com o meu família...» E lá foi com a malta dele. Trouxe uma data de terroristas. Prendêmo-los e interrogámo-los. Muitos eram terroristas porque não poderiam ter sido outra coisa.
Não tinha problemas em pôr guerrilheiros capturados a colaborar connosco. Levavam uns tabefes, um «calorzinho». A PIDE não era propriamente uma organização de beneficência.
Como o resultado foi bom, propus ao Matias para ir ver se encontrava mais. Ele disse sim. Dei-lhe oito espingardas. O resultado foi tal que aquele homem limpou o terrorismo, a infiltração da UNITA. A norte do Cuando-Cubango, deixou de haver terrorismo da UNITA.
O Matias chefiou uma aldeia com mais de cinco mil pessoas. Todos os dias içava, com honras militares, a bandeira nacional e também o seu pendão, a Cruz de Avis.


5.
Estive em Moçambique em 1971 e 1972. O director
Silva Pais convocou-me e fui levado à presença do Ministro do Ultramar, Silva Cunha. Disseram-me para organizar os Flechas em Moçambique.
Talvez tivesse havido precipitação da nossa parte porque em Moçambique já existiam os Grupos Especiais (GE) e os Grupos Especiais Pára-Quedistas (GEP), que eram muito bons.
Verifiquei, nessa Província não ser premente a necessidade de organizar Flechas.
A minha actividade em Moçambique resumiu-se a detectar a penetração de terroristas da Frelimo feita a partir do Malawi, sobre a linha Beira-Tete, onde iam destruir a linha de caminho-de-ferro. Organizei a informação em Caldas Xavier, com incidência no Malawi, e um sistema de informação no Malawi. Sabíamos quase sempre quando eles punham as bombas no caminho-de-ferro.
Em Lourenço Marques e em Luanda, a PIDE tinha uma colaboração estreita com o Bureau of State Security (BOSS), sul-africano, hoje o National Intelligence Service (NIS). Também tínhamos uma boa colaboração com a South Afican Police (SAP). Interessava, porque a policia sul-africana estava dispersa em vários postos ao longo da fronteira para evitar a penetração da SWAPO, movimento que lutava pela independência da actual Namíbia.
Havia também colaboração com serviços equivalentes da Rodésia.
As Forças Armadas sul-africanas forneciam-nos, por vezes, helicópteros e meios aéreos.E estavam interessadas na UNITA, dado que a UNITA e a SWAPO trabalhavam em conjunto. Nós funcionávamos como uma espécie de tampão à SWAPO, que tinha de atravessar o Cuando-Cubango vinda das suas bases na Zâmbia. Por diversas vezes tivemos contactos com os terroristas namibianos. Numa dessas vezes fui ferido com um estilhaço na mão. Foi uma operação que fizemos em colaboração com os sul-africanos.


6.
No Cuando-Cubango, havia postos da PIDE em Serpa Pinto (sede), em Caiundo, Cuangar, Calai, Dirico, Mucusso, Rivungo, Cuito Cuanavale e Mavinga. Tínhamos a colaboração dos caçadores das três coutadas: Kirongozi, Luengue e Mucusso. Obviamente que estávamos em colaboração total com a tropa que tinha em Serpa Pinto um batalhão, uma companhia comandada pelo Vítor Alves, na N’riquinha, perto da fronteira com a Zâmbia, um pelotão reforçado na Luiana e meia dúzia de elementos em Mavinga.
Os comerciantes, os elementos da PSP, também faziam operações conjuntas com os Flechas. E, quando havia operações militares, os Flechas iam, ou um agente da PIDE com um flecha, que às vezes servia de intérprete.

7.
Estive ainda a chefiar a subdelegação de Carmona, após o que vim para Lisboa integrar a Secção Central dirigida por Álvaro Pereira de Carvalho.


8.
O 25 de Abril foi um golpe com a conivência de Marcelo Caetano.

9.
Penso que Portugal vai desaparecer.


Copyright © 1999 Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso
http://www.geocities.com/heartland/garden/4462/dgscardoso.htm
 
Ainda não vi nenhum episodio (vou tentar arranjar), mas, vocês estão a falar da guerra colonial como só existissem o lado português e o lado angolano, quando, na realidade, existiam outros interesseses (EUA, ex-URSS, etc), que NÃO estavam com "ideias", nem de manter Angola como portuguesa, nem como independente.................... eles queriam era Angola de "rastos".............

Aliás, foram eles os causadores da guerra e são os grandes responsáveis do que se passa hoje lá (em Angola e noutros paises de Africa)![;)]
 
As pessoas tendem a esquecer que em Angola subsistiam práticas de escravatura inaceitáveis.

Nos anos 60 ainda havia compra e venda de negros para as fazendas.

A terminologia empregue, popularmente encriptada, baseava-se na construção: «preciso de 40 barrotes...». Os barrotes eram os negros e fazendeiro que podia comprar 40 barrotes (não era alugar, e muito menos contratar!...) era já um grande fazendeiro.
 
As pessoas tendem a esquecer que em Angola subsistiam práticas de escravatura inaceitáveis.

Nos anos 60 ainda havia compra e venda de negros para as fazendas.

A terminologia empregue, popularmente encriptada, baseava-se na construção: «preciso de 40 barrotes...». Os barrotes eram os negros e fazendeiro que podia comprar 40 barrotes (não era alugar, e muito menos contratar!...) era já um grande fazendeiro.

Eram casos raros, estava longe de ser uma practica comum. O meu tio (irmão do meu pai) também tinha uma fazenda, os empregados eram devidamente pagos, até para conseguir umas terras dos negros o meu tio negociou com eles, em troca das terras onde estavam construiu novas casas (melhores) noutra zona.
 
A série é bastante interessante, e mostra aspectos que certamente deixarão muitos boquiabertos.

Desde a frieza dos relatos do membros da UPA envolvidos nos massacres de 1961, à resposta que isso originou.

Mas será bom que vejam que esses acto visou, não só, brancos apelidados de colonialistas mas também muita população negra que tinha vida estável, e não era necessário que trabalhassem para colonialistas, bastava que não alinhassem nas pretensões da UPA.

E a UPA movia-se por interesses de quem e de que organizações politicas ?
Será que era a libertação do jugo colonialista, ou seriam os interesses de outras nações ?


Presumo que talvez possam faltar relatos como este

Yamato obrigado pelo contributo. Imprimi os 2 textos para o meu pai ler, a ver o que ele me diz.
 
As pessoas tendem a esquecer que em Angola subsistiam práticas de escravatura inaceitáveis.

Nos anos 60 ainda havia compra e venda de negros para as fazendas.

A terminologia empregue, popularmente encriptada, baseava-se na construção: «preciso de 40 barrotes...». Os barrotes eram os negros e fazendeiro que podia comprar 40 barrotes (não era alugar, e muito menos contratar!...) era já um grande fazendeiro.

Isso era muito raro!
Os negros o brancos viviam em harmonia, tanto em Angola, como em Moçambique!
O Apartheid foi mais para Sul; mais um grande exemplo do civismo inglês...................
 
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