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Apesar de tudo o que foi dito e ainda do que poderia ser fastidiosamente comprovado, fica por responder a seguinte questão de fundo que aflora a todas as mentes:
E a crise? Quem é que paga o tal bicho chamado défice? Não tem de tocar a todos, uma perna a um, uma unha a outro e por aí fora?
Socorramo-nos então das insuspeitas conclusões de estudos da Comunidade Europeia (afinal sempre temos que acreditar em qualquer coisa, pois nos últimos tempos...), em que referem o nome de Portugal à cabeça do pelotão dos países mais pobres da Europa (ultimamente são só recordes... ).
Já estou a ver muita gente a dizer que isso só vem confirmar que é preciso um esforço de todos e blá, blá blá...
Mas, as referidas conclusões da C.E. também referem que Portugal está à cabeça (que monotonia) dos países em que são maiores as assimetrias sociais e económicas entre a população.
Portugal continua a ser o País da União Europeia com mais baixos salários, onde se têm acentuado as desigualdades salariais e sociais e onde a repartição do rendimento nacional se tem crescentemente agravado. Estima-se que dois milhões e trezentos mil portugueses, onde se incluirão milhares de trabalhadores que auferem a retribuição mínima, vivam abaixo do limiar de pobreza, tendo rendimentos inferiores a 60% do rendimento médio nacional. Trata-se da mais elevada taxa de pobreza da União Europeia.
Mas, Portugal lidera também a tabela dos 15 países da UE no que respeita à disparidade de rendimentos, em que o fosso entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres é maior.
A evolução da riqueza material do País, medida pelo PIB, tem-se traduzido por uma apropriação, predominantemente a favor dos lucros das empresas, dos ganhos de produtividade da economia, em prejuízo dos rendimentos do trabalho.
Com estas evidências, até o meu amigo Joãozinho perceberia que, antes de exigir sacrifícios a todos, seria minimamente coerente tentar acertar o passo com a Europa, reduzindo drasticamente o tal fosso terceiro-mundista entre ricos e pobres. Ao mesmo tempo, a “carne do lombo” do tal bicho chamado défice, seria prioritariamente paga por aqueles que fogem escandalosamente ao fisco ( não me refiro às acções de mera maquilhagem estética sobre o pequeno contribuinte prevaricador), pelos que beneficiam de continuar a manter-se o sigilo bancário, pelos que vertem cifrões sobre as off-shores, pelos que engrossam a lista recorde ( mais uma ) de compradores de Porches por Km2, etc., deixando, isso sim, posteriormente para os trabalhadores, a comparticipação final, solidária e equilibrada, na tal unha ou até na perna do tal desagradável bicho do défice.
Finalmente, embora considere de toda a legitimidade as lutas desencadeados pelos diversos trabalhadores, fardados ou não, atingidos pelas medidas recentes deste Governo, estou seguro que qualquer opção corporativista, num espírito de “salve-se quem puder”, é profundamente errada, devendo-se contrapor, isso sim, uma campanha unitária de responsabilização daqueles que não nos deixam sair da Europa profunda, que apenas vibra com os seus hipermercados gigantones, com os seus estádios galácticos e até com os autarcas corruptos pincelados de laca, euros e arrogância!
Mas,está aqui algo de novo? Não está aqui aquilo que todos instintivamente sentimos?
Será que os nossos governantes do bloco central, licenciados nas áreas do maior ilusionismo político não sabem disso?
Concerteza que sim, mas todos os cenários são possíveis num país em que o mundo político e o mundo económico se confundem, em que os governantes, os empresários, os administradores e os consultores trocam de cadeiras entre si, com a mesma eficiência e crueldade com que outros mataram o Joãozinho, que nunca brincara aos soldadinhos de chumbo.
Roberto Robles - 27-10-2005