Eu percebo que alguém com 20 anos, ainda com pouco capital acumulado e com a vida toda pela frente, arrisque em tudo e mais alguma coisa, afinal de contas, se correr mal, a consequência é pequena, aprende e recomeça.
Mas a partir de determinada altura temos de pensar qual é afinal o objetivo com que poupamos e colocamos capital nos mercados, se é só pela excitação do jogo, para ver subir e descer e tentar adivinhar o que vai acontecer, se é uma tentativa de tudo ou nada, acabar rico ou falido, ou se é para fazer crescer as poupanças acima da inflação e garantir a estabilidade financeira no futuro. Se o objetivo é garantir o meu futuro, eu tenho de excluir os cenários que não garantem esse futuro e um investimento balanceado, exclui muito mais cenários de desempenho catastrófico do que investir só em ações.
Nos últimos tempos tem havido muita conversa sobre o portfólio "moderno" que é 100% de ações, talvez com um pouco de ouro e um pouco de crypto, o que acaba por ser uma consequência de 8 anos de Euribor negativa e uma subida vertiginosa das yelds em 2022, que trouxeram uma das piores épocas de sempre das obrigações, 2022 terá sido mesmo o pior ano de sempre. Mas por outro lado, a historia mostra-nos que crashes de dimensão de um século, não acontecem todos os anos... Também nos mostra, que o viés da recência, ou seja, olhar para os últimos anos e achar que o futuro vai ser sempre assim, é um perigo brutal, já que os mercados normalmente comportam-se em ciclos e tendem a retornar à média, quando há um ativo/setor/região que durante algum tempo valoriza mais do que a média, nos períodos seguintes com alguma probabilidade vai valorizar menos. Por isso eu cá continuo de pedra e cal num portfólio de stocks+bonds.
Até porque todos os testes que é possível fazer, apesar do terrível 2022 parecem continuar a indicar que essa é a forma que mais vezes garante que no final da jornada estamos bem.
Por exemplo, fazendo o backtest ao FTSE All World a 100%, vs combinações com 20, 30 ou 40% de bonds governamentais de longo prazo, em períodos de 25 anos, começados 1970 até 2000, em 17 dos 31 períodos teria sido melhor investir num portfólio 60/40 do que num portfólio 100%.
Pressupostos são:
$5k initial value and $200 per month over 25 years
Global equities (VT) and long term treasury (TLT)
Portfolios 100/0, 80/20, 70/30, 60/40, rebalance yearly, inflation adjusted returns
https://testfol.io/?s=iOO0MLaZ7Em
É certo que quem começou entre 1998 e 2000, ou seja, quem terminou os 25 anos de acumulação entre 2023 e 2025, as obrigações só tiveram a puxar para baixo, mas por exemplo, quem começasse os seus 25 anos entre 1984 e 1997 beneficiaria largamente em ter um portfólio com obrigações.
Acontece ainda que durante uma vida de investimento, alguém que esteja 100% em ações é quase certo vir a sofrer um crash superiores a 50%, ao longo da vida, diria que com alguma probabilidade veremos as ações cair mais de 60% pelo menos uma vez, se essa vez acontecer quando precisamos de retirar dinheiro, isso terá um impacto enorme quer financeiro, porque ao resgatar de um ativo desvalorizado a possibilidade de recuperação total desce brutalmente, quer psicológico.
Num portfólio 60/40 as quedas tendencialmente são muito menores, e a parte das obrigações geralmente funciona como um amortecedor, pelo que mesmo que seja preciso gastar dinheiro, pode-se sempre ir tirando da parte valorizada e dar tempo ao resto para recuperar.
Durante a crise financeira por exemplo, enquanto um portfólio 100% bateu nos 59% de desvalorização, o 60/40 ficou-se pelos 31.5%. Um portfólio de 100% ações fez uma travessia desde os máximos de 2007, até voltar a recuperar em 2014, enquanto alguém com 60/40 em 2011 já estava a por o nariz fora da agua.. Quanto mais não seja, psicologicamente faz uma diferença brutal e ajuda a manter o plano.
Quem achar que um portfólio assim é pouco arriscado, estatisticamente tem mais chances de melhorar os seus resultados usando um pouco de alavancagem e mantendo uma estratégia diversificada entre ações e obrigações, do que usando estratégias de sobre concentração.
Atualmente há ETF's que permitem fazer isso de forma muito eficiente, como p.ex. o WisdomTree Global Efficient Core UCITS ETF, que investe 90% do capital no MSCI World, e os restantes 10% coloca num depósito de curto prazo que é usado como colateral para comprar futuros de um cabaz de govies com 6x de alavancagem, pela forma como o faz é extremamente barato (uma conta margem em qualquer corretora ou banco fica brutalmente mais cara) e ao contrário dos ETF's com alavancagem típicos não sofre do problema dos resets diários. Trocando por miúdos, investe 90% em ações e 60% em bonds, o que corresponde a um investimento final de 150%, ou seja, uma alavancagem efetiva de 1,5X.
Um portfólio por exemplo com 66,6% neste ETF e o restante em outros ativos ficaria com uma alavancagem efetiva de 1,33X e por cada 1000€ efetivamente investidos teria 600€ no MSCI World, 400€ num cabaz de obrigações governamentais e ainda sobravam 333€ para investir em outros ETF's, ações, ouro, REIT's, ou o que entenderem melhor.
Eu pessoalmente sigo uma aproximação mais conservadora que é simplesmente alocar a obrigações uma percentagem igual à minha idade subtraída de 20. A ideia é arriscar mais no inicio, e ir reduzindo o risco para por volta dos 60 anos ter cerca de 40% em obrigações e depois manter sempre nos 40%.