Obtuso
Well-known member
Não se gastava menos paleio a dizer quantas dessas 637 situações de violência foram cometidas por ciganos?No truques de imprensa
Houve sempre, ao longo da história, quem construísse carreiras políticas com base nos medos e na capacidade para odiar do ser humano.
Basta apenas pressionar-nos o gatilho dos preconceitos que já albergamos no coração. Quando assim é, deitamos os números pela janela e saltamos para o comboio da irracionalidade.
Uma pessoa de etnia cigana agrediu uma médica e logo surgiram, como abutres, dezenas de dedos prontos a disparar sobre um grupo inteiro o ódio que anos de evidência anedótica vem construindo, pela calada, nas costas da diferença.
Num ano onde, até junho, se registaram 637 notificações de violência sobre profissionais de saúde, 10% dos quais física, foi o caso do agressor diferente que veio reclamar a atenção de certas pessoas.
Os jornalistas estiveram, na sua grande maioria, à altura da circunstância e reportaram o facto naquilo que ele tem de relevante: uma agressão bárbara contra uma profissional de saúde num contexto mais alargado de perigosidade crescente, materializada em centenas de casos, no exercício dessa profissão. Extrapolem-se daqui conclusões sobre os tempos de espera nos serviços de saúde, por exemplo. Mas, a menos que a estatística demonstrasse outra coisa - e parece não o demonstrar - nunca sobre etnias, cores, gostos ou clubes dos agressores.
Ouvem-se agora nas redes sociais e noutros lugares algumas vozes que se levantam contra este silêncio da imprensa em relação à etnia do agressor, vozes essas que se calaram nas centenas de outros casos de violência que vieram a lume na última década, quando a etnia do agressor não encaixava na mensagem que queriam passar.
Dar relevo jornalístico à origem étnica do agressor só seria permitido se essa relevância fosse dada sempre, isto é, se a cada agressão reportada, em cada caso de violência, a etnia a que pertence o agressor fosse identificada.
Não é o caso. Assim sendo, identificar a etnia do agressor apenas nos casos em que ela difere da maioria caucasiana que habita Portugal seria um ato de discriminação incompatível com as regras deontológicas dos jornalistas que criaria a ideia errada de que este tipo de crimes são cometidos sobretudo por certas pessoas.
Não se trata de "ocultar" a verdade. Trata-se de dar um tratamento igual a situações iguais. A agressão violenta, independentemente da etnia do agressor, é um crime punível por lei e digno de cobertura isenta.
Assim sendo, apliquemos ao jornalismo, à mensagem de certos políticos e a nós próprios um teste muito simples.
Neste sábado, um jovem de 24 anos foi morto à facada por três indivíduos, em Lisboa. É desconhecida, neste momento, a ascendência étnica dos agressores.
Se os criminosos forem brancos, será legítimo retirar dessa circunstância uma qualquer conclusão sobre a população branca residente em Portugal?
Se a resposta for não, então não existe razão para mencionar esse facto.
Se a resposta for sim, aguardaremos impacientes pelo vociferar de preocupações relacionadas com a violência entre a população branca deste país.
É também para não deixar que nos convençam que a violência tem na sua raiz, não a exclusão social, não a pobreza, não a falta de oportunidades, mas a cor da pele, ou a etnia, ou o país de origem, ou a religião, que serve o jornalismo.
Para abrir consciências, em vez de as fechar. Para cerrar fileiras, enfrentando a ignorância e os ignorantes.
Só para calar os preconceituosos!