com a devida autorização do autor vou transcrever aqui um conto que li há cerca de dois anos, na altura em que foi lançado o seu livro.
devido ao facto de ser algo extenso, não vou conseguir fazê-lo todo de uma vez
toca-me o facto de quando ter lido isto pela primeira vez, não conseguir imaginar que este género de histórias se repetissem no Portugal do século XXI, mas infelizmente a realidade está aí para nos mostrar o contrário, por isso achei que seria de partilhar
QUANDO EM DEZEMBRO NÃO HOUVE NATAL
Em Carção, sobretudo para os mais pobres, começou muito cedo o Inverno de 1960.
O rebusco da castanha não deu para cozer mais de meia dúzia de vezes, as primeiras geadas, anormalmente fortes cedo recozeram as nabiças e os repolhos e de azeitona não havia quase nada.
A juntar a tudo isto,era cada vez mais complicado ir à ladeira do Sabor fazer uma carga de estevas, não havia nabos na Alamela nem grelos na Veiga, as batatas e as cebolas acabaram, havia muito, nas hortas da Ribeirinha.
Terminadas as sementeiras, em finais do Outono, ninguém dera a ganhar uma jeira que fosse.
As barragens do Douro havia muito que não davam trabalho, as minas de Argozelo e de Coelhoso não aceitavam ninguém e não "andavam" estradas pelas redondezas.
Depois de dar algum ao "soto" para abater à dívida, pagar à padeira, ao sapateiro, ao alfaiate, ao barbeiro e a não sei quem mais, o que sobrara dos míseros alqueires de cereal colhidos nas chaquedas na Fireira, em santa Marinha, em Vale de Palácios, nas bordas de Vale de Madeiros e do Castelinho, já nem dava para ir duas vezes ao moínho do coleijo e do pouco azeite proveniente da azeitona apanhada ao rebusco ou separada do "alpechim" que, rua abaixo, escorria dos lagares do Checas e dos pimparéis, não restaria mais do que meia azeiteira.
A fome, negra, dura e crua fome, rondava ameaçadoramente.
Os filhos mais novos iam confortando a barriga com a sopa quente,regularmente distribuída na cantina escolar, fundada e mantida pela generosidade ímpar dos Beneméritos Irmãos Santos enquanto os mais velhitos vagueavam pela aldeia, sem alegria e sem esperança, matando o tempo a jogar à bilharda, ao pingue ou ao pião, atirando aos pardais, que nunca conseguiam apanhar, ou entretendo-se a brincar aos contrabandistas e aos guardas ou aos polícias e aos ladrões, disfarçando assim a meninice a que nunca tiveram direito.
Era neste cenário de quase desespero perante a impotência para fazer fosse o que fosse para alterar esta vida de miséria que se afogavam os pensamentos da maior parte dos homens de Carção, sem saída possível nem solução à vista, horas sem fim às abrigadas ou sentados nas escadas da Capela de Santa Marinha, olhando de soslaio para a taberna do Chelo, enquanto iam metendo as mãos nos bolsos, esperando que, por milagre, ainda aparecesse alguma moeda esquecida que desse para um quarteirão de vinho ou uma copa de aguardente.
Numa destas tardes de Domingo, um indivíduo desconhecido, baixo e anafado, de velhas calças de pana amarela e samarra de gola de pele de raposa bem apertada ao pescoço, vindo dos lados de Santulhão, aproximou-se do grupo e, como quem desempenha um papel, de tantas vezes repetido, já mais que decorado, perguntou como iam as coisas por ali.
Perante o coro de queixas com que foi brindado por todos eles, não lhe foi difícil apanhá-los por onde era mais fácil.
Com resposta decidida e pronta encostou-os á parede, contrapondo-lhes que só estavam mal porque queriam, que era só querer ir ganhar muito e bom dinheiro para a espanha, para a França e até para a Alemanha.
-Isso é muito fácil de dizer, meu amigo, retorquiu-lhe um deles. O pior é o resto.
-Meus amigos, quem realmente quiser ir para fora, apareça no "cabanal" da Capela do S. Roque, hoje às oito da noite, tragam só uma fotografia, quinhentos escudos quem quiser ir para Espanha ou um conto quem quiser ir para França.
O resto é comigo.
Se quiserem mesmo ir para onde se ganha dinheiro a sério, não se atrasem e resolvam-se depressa que o próximo carro está quase cheio e pronto a partir.
Nessa noite já ninguém comeu o caldo sossegado.
Foi juntar os últimos tostões, pedir o resto emprestado e, antes que fosse tarde, ir fazer o trato com aquele homem caído do Céu que lhes prometia abrir as portas da fortuna.
No S. Roque foi tudo rápido e muito fácil.
Tudo se resumiu a entregar o dinheiro e metade de uma fotografia, recebendo em troca a informação de que o carro para França sairia de Carção de 23 par 24, às duas da manhã.
Em menos de meia hora estava tudo acertado e o homem baixo de samarra de gola de pele de raposa e calças de pana amarela, com um boa noite apressado desapareceu a cavalo para os lados de Izeda.
Só quando se meteram na cama é que aqueles homens começaram a pensar se tudo aquilo não seria antes uma grande vigarice.
Porque nem às mulheres disseram bem o que tinham ido fazer ao S. Roque àquela hora, o sono nunca mais chegou, o que tornou aquela noite ainda mais longa e negra que as muitas noites de pesadelo e insónia até então vividas.
Agora, apenas restava confiar e esperar que chegasse depressa o dia de abalar.
Na noite combinada, não havia lua para iluminar aquela interminável noite dum Inverno que, como todos, nunca mais tinha fim.