Neste tipo de tópicos existem, ou tendem a existir, duas correntes e, ocasionalmente, uma terceira:
- Os que praguejam e dizem mil vezes mal do país onde vivem, da classe política, etc - Cabe tudo no mesmo saco, é tudo uma porcaria, uma cambada de chulos, de ladrões, corruptos...;
- Os que, nisso não alinhando, assumem a posição de que as coisas são de uma determinada maneira e quem não gosta tem a fronteira do país bem pertinho;
- E, ocasionalmente, os que apontam, gozam e brincam com as situações mais caricatas, ridiculas e escandalosas, no fundo fazendo dessa forma uma critica feroz ao "estado de coisas".
Penso que não se pode ser nem "tanto ao mar, nem tanto á terra". Nem se pode viver num estado de constante crítica e visão negra e pessimista do país onde se vive (a não ser que se seja tendencialmente soturno, depressivo e negativista e, aí, compreende-se) nem se pode, com o habitual ar de superioridade intelectual, aceitar como boa qualquer modificação na ordem vigente e que até represente uma limitação ou compressão nos direitos, liberdades e garantias quando feita numa lógica de racionalização dos dinheiros públicos, quando estes, logo ao lado, no próprio aparelho público do estado, são muitas vezes utilizados de uma forma, no mínimo, amoral, senão mesmo ilegal, redundando em gestões danosas. E sem que daí advenham quaisquer consequências para os autores dessa disposição dos fundos que, invariavelmente, mantém os seus postos ou são discretamente remetidos para institutos ou empresas públicas.
Por outro lado, discussões que oponham situações reais de ineficácia e de falta de funcionamento ou coordenação de serviços essenciais assegurados pelo estado ou do brutal corte de benefícios anteriormente assegurados (por exemplo, o apoio judiciário), por falta de verbas, com as grandes opções do plano (que representam investimentos de milhares de milhões) oscilam sempre entre 2 extremos: a demagogia barata (que algumas vezes tem atrás de si um núcleo de razão) e simples o acusar dessa demagogia.
Guerra Junqueiro assim definiu o povo em 1886... e, no fervor intelectual daqueles tempos, talvez tenha feito, no fundo, um retrato da nossa alma mais profunda. Aliás, só um povo assim podia ter inventado o fado.
" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas..."