Acreditar ou não acreditar em Deus? A questão arrasta-se desde sempre. Um estudo da Universidade de Chicago comparou a evolução das respostas a um inquérito em 30 países e, – apesar de no geral haver cada vez menos gente a dizer “sim” –, nas Filipinas, Chile, Estados Unidos, Polónia e Portugal a esmagadora maioria da população continua a acreditar em Deus. Na cauda da lista estão países como a Alemanha, República Checa, Japão, Suécia e França.
O inquérito internacional Belief About God Across Time and Countries, coordenado por Tom W. Smith do General Social Survey da Universidade de Chicago e que compila dados reunidos junto de organismos de vários países, mostra que há diferenças muito significativas nas respostas a perguntas relacionadas com a crença em Deus – sendo esta mais elevada nos países em desenvolvimento. Os autores destacam as Filipinas como o país onde mais gente diz sempre ter acreditado em Deus (94%), por oposição à Alemanha (13%). Em Portugal 78% das pessoas disseram que acreditam em Deus e que sempre acreditaram e 6% disseram que não acreditam nem nunca o fizeram.
Os autores escrevem que, na maioria dos países, as pessoas mais velhas foram as que mais disseram acreditar em Deus, factor que Tom W. Smith sugere poder estar relacionado com a proximidade com a morte. No total, 43% dos que disseram estar certos de que Deus existe tinham mais de 68 anos, em comparação com apenas 23% entre os com 27 anos ou menos. Nos dados nacionais, 40% das pessoas com menos de 27 anos disseram acreditar, por oposição a 75% na camada com mais de 68 anos.
O coordenador do trabalho destacou que os países com uma maior crença em Deus tendem a coincidir com sociedades católicas, sobretudo nos países em desenvolvimento, como é o caso das Filipinas. Contudo, os Estados Unidos também se destacam no topo da tabela, sobretudo a população protestante.
Ateísmo a crescer
Tom W. Smith nas conclusões da análise comparativa, sublinhou também que o ateísmo é mais forte no noroeste da Europa, enumerando países como a Escandinávia e outros que pertenceram à antiga União Soviética, com excepção para a Polónia. A Alemanha Oriental destaca-se como o país com uma percentagem mais elevada dos que responderam nunca ter acreditado em Deus (59%) contra os apenas 4% de norte-americanos que deram a mesma resposta. À questão relacionada com ateísmo, mais de 50% dos portugueses responderam que não têm dúvidas de que Deus existe mas 5% disseram não acreditar na sua existência.
Mas ao mesmo tempo que a crença em Deus tem vindo a cair um pouco por todo o mundo, países como a Rússia, Eslovénia e Israel vão no sentido contrário. Na Rússia, por exemplo, a diferença entre os que acreditam em Deus agora mas não acreditavam e os que não acreditam agora mas já o fizeram é de 16% a favor dos que acreditam.
O inquérito recolheu também dados sobre se as pessoas acreditam num Deus que se preocupa com cada indivíduo. Na Alemanha Oriental a resposta ficou-se nos 8% contra os 92% nas Filipinas. Nos Estados Unidos o número ficou nos 68% e em Portugal nos 58%.
O inquérito compilou dados de trabalhos de 1991, 1998 e 2008 recolhidos na Austrália, Áustria, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Chile, Chipre, Dinamarca, Estados Unidos da América, França, Alemanha Ocidental, Alemanha Oriental, Grã-Bretanha, Hungria, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Letónia, Holanda, Nova Zelândia, Irlanda, Noruega, Filipinas, Polónia, Portugal, República Checa, Rússia, Suécia e Suíça.
Esta semana, também um estudo português do Centro de Estudos de Religiões e Culturas (CERC) da Universidade Católica Portuguesa, relatou que, desde 1999 até 2011, diminuiu o número de católicos em Portugal (que são agora 79,5%) e aumentou o número de protestantes (incluindo evangélicos) e Testemunhas de Jeová.
Os católicos desceram de 86,9% para 79,5%. “Pode observar-se um decréscimo relativo da população que se declara católica e um incremento da percentagem relativa às outras posições de pertença religiosa, com um particular destaque para o universo protestante (incluindo os evangélicos)”, diz o relatório assinado por Alfredo Teixeira, do CERC.
O inquérito, que foi realizado em Novembro passado, a partir de quatro mil entrevistas em todo o continente, compara os dados obtidos com um inquérito semelhante realizado em 1999. Em ambos os casos, pretendia-se saber como é que os portugueses se situam perante o fenómeno religioso, através de perguntas sobre a regularidade da prática religiosa ou de atitudes como a frequência com que se reza: 33% dos inquiridos dizem que todos os dias costumam “rezar ou dirigir-se a Deus ou qualquer outra entidade sobrenatural”, enquanto 26,7% o faz algumas vezes na semana.