António Chora, líder da Autoeuropa
"Carvalho da Silva sairá a meio do mandato"
O coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa não acredita na renovação da CGTP. António Chora, militante do Bloco de Esquerda, considera mesmo que Carvalho da Silva não terá condições para cumprir até ao fim o seu último mandato como secretário-geral da Intersindical.
"A oportunidade (perdida) da CTGP", é o título de um artigo de opinião de António Chora, publicado recentemente no 'Jornal do Pinhal Novo'. O coordenador da Comissão de Trabalhadores da Volkswagen Autoeuropa e delegado sindical do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul é uma das figuras mais conhecidas da corrente sindical ligada ao Bloco de Esquerda.
Apesar de ter sido o maior protagonista de alguns dos principais processos laborais nos últimos anos, Chora foi vetado pela corrente mais ortodoxa do PCP quer para delegado ao congresso da CGTP, quer para membro do seu novo Conselho Nacional.
No artigo em causa, e numa referência clara ao PCP, critica os que seguem "uma política de luta de acordo com o calendário político de alguém, que vê os sindicatos como correia de transmissão dos seus ideais".
Quanto à nova comissão executiva, a sair do congresso da CGTP que se inicia já na sexta-feira, em Lisboa, António Chora não alimenta qualquer esperança. "Com a saída" de Florival Lança e José Ernesto Cartaxo "e a entrada de "novos" sindicalistas com ideias pré-concebidas contra a nova central sindical mundial, Manuel Carvalho da Silva vai ficar mais isolado e em meu entender não terá condições para levar o mandato até ao fim e sairá a meio, devido às contradições entre o que quer para o Mundo Sindical (e lendo o seu último livro, o que quer é muito do que o sindicalismo precisa) e o papel que o quererão obrigar a desempenhar".
Publica-se a seguir, e com a devida vénia, o artigo de António Chora no 'Jornal do Pinhal Novo':
A oportunidade (perdida) da CGTP?
Vai realizar-se nos dias 15 e 16 de Fevereiro o XI Congresso da CGTP. Neste Congresso é anunciada a renovação dos Quadros da Central e cerca de um terço vai abandonar o Concelho Nacional, mas é necessário vermos quem são os que abandonam e quem são os que os substituem.
Entre os quem saem estão pessoas que há mais de 25 anos não sentem a pressão de um chefe na empresa, que não conhecem na prática os ritmos de trabalho, que desconhecem na prática o trabalho em equipa, que não sabem, na prática, o que é fazer a mesma produção diária com menos pessoas devido ao absentismo, seja ele por razões naturais, de estudo ou por razões sindicais, assim é fácil opinar sobre questões que se desconhecem.
Para muitos destes sindicalistas como para os que ficam, o Livro Verde das Relações Laborais foi uma surpresa, porque sendo um livro que veio mostrar a realidade do mundo do trabalho em Portugal, veio demonstrar que os Contratos Colectivos existentes, não são respeitados, na esmagadora maioria dos casos pela pressão exercida pelos patrões e alguns empresários (que neste caso temos poucos em Portugal) sobre os trabalhadores, pela chantagem muitas vezes virtual, mas algumas real sobre o emprego, ou seja, veio mostrar ao comum dos sindicalistas que a realidade não é o que imaginamos, mas o que efectivamente é.
Para alguns deles, isto foi uma "pedrada no charco", ou seja, viram que o seu trabalho (na esmagadora maioria dos casos convicto e dedicado aos interesses dos trabalhadores), não resultou, que hoje os trabalhadores estão confrontados com novas realidades no local de trabalho, que as respostas "feitas" não levaram a lado nenhum. Compreendo a amargura de muitos deles, apesar da aparente boa disposição.
Mas também quero aqui lembrar que estes são sindicalistas que querendo, (apesar da idade), podem aprender com a realidade e juntá-la à experiência que tem para levar a "bom porto" uma politica que deve ser a de mais negociação, menos legislação, uma politica que mobilize os trabalhadores para defenderem os seus verdadeiros interesses na negociação e, não, uma politica de luta de acordo com o calendário político de alguém, que vê os sindicatos como correia de transmissão dos seus ideais.
A mudança a que vamos assistir na CGTP vem impregnada de uma outra coisa que não augura nada de bom, vem impregnada de jovens (na idade) velhíssimos na mentalidade, jovens delegados sindicais a quem, logo que são nomeados, (é esta a palavra na maioria dos casos) é dada uma formação no (distrito de Setúbal é assim) em Luta de Classes na quinta da Atalaia no Seixal, ficando depois preparados para assumir um cargo na Direcção do Sindicato nas eleições seguintes.
Foi interessante também vermos como decorreram as escolhas para os delegados ao Congresso, foram mesmo escolhas, recaíram em 90% dos casos sobre dirigentes sindicais, os restantes foram nomeados da seguinte maneira " da Comissão Sindical da Autoeuropa, vai "fulano de tal "porque "fulano de tal está vetado pela direcção só.." e se o "fulano" não aceitar, vai mais um membro da Direcção, e o "fulano" não aceitou, porque exigia eleições para delegados. Entre os escolhidos e já nomeados para o Concelho Nacional por este distrito, estão pessoas cujas empresas significam 2 ou 3% dos sindicalizados e outros que, nem sequer empresa tem. porque a mesma ou já fechou os se deslocalizou.
Em, conclusão, Manuel Carvalho da Silva a continuar, vai ver desaparecer alguns sindicalistas que não mudaram desde o PREC, mas também os que compreenderam nos últimos tempos as mudanças no mundo laboral, que compreenderam a necessidade de globalização das lutas e das reivindicações, a defesa do emprego em Portugal, na Europa e no Mundo, mas um emprego com direitos, um emprego com sindicalizados em verdadeiros sindicatos independentes de partidos, da China a Portugal, passando por Angola, pela Venezuela e pelo Brasil. Com a saída destes e a entrada de "novos" sindicalistas com ideias pré-concebidas contra a nova central sindical mundial, Manuel Carvalho da Silva vai ficar mais isolado e em meu entender não terá condições para levar o mandato até ai fim e sairá a meio, devido ás contradições entre o que quer para o Mundo Sindical, (e lendo o seu ultimo livro, o que quer é muito do que o sindicalismo precisa) e o papel que o quererão obrigar a desempenhar.
Provavelmente, e porque sair agora poderia ser uma forte machadada no movimento sindical, com percas irremediáveis para o movimento e apesar de tudo para os trabalhadores, irá optar por sair depois, utilizando a regra dos 60 anos agora imposta.
Uma coisa é certa, ninguém anda muito tempo com o dilema de "manter tudo na mesma ou mudar" só os imobilistas políticos e sindicais tem medo da mudança, esquecendo que mudar é próprio da natureza humana, pois se mudarmos e algo correr mal, podemos sempre voltar ao início, mas se não mudarmos, garantidamente tudo continuará na mesma, e serão sempre os mesmos do costume a sofrer.