Como estamos no tópico das casas e a falar de taxas de juro e endividamento, aqui vai uma dúvida.
É consensual entre Banqueiros, Economistas e demais especialistas que as taxas de juro andaram durante os últimos anos em valores artificialmente baixos, anormais e temporários, portanto. O presidente do BCP, por exemplo, quando apresentou os resultados do 1º trimestre deste ano disse, com um ar de quem estava a informar a turba ignara sobre uma evidência, que "as taxas estão agora a aproximar-se dos valores normais" ( cito de cor ) - estava a taxa do BCE à volta dos 3.5
Eu ganho a vida a vender hóstias, tenho o meu mercado estabilizado e consigo, em condições normais, um rendimento líquido na casa do 1000€ mensais. Este ano, à conta das JMJ, vou tirar a barriga de misérias, prevejo um rendimento líquido mensal de 2500€.
Se em 2024 for ao Banco pedir um crédito habitação a 40 ano com a minha Dec IRS empolada anormalmente pelas JMJ, o Banco e os seus excelentes quadros e gestores vão fazer as contas à minha taxa de esforço com base nos meus modestos 1000 euritos "normais", argumentando muito bem que têm que ter em conta as situações de normalidade e não as excepções. Eles são bons no seu trabalho/negócio, não se deixam levar ...
Assim sendo, alguém me consegue explicar porque é que a Banca andou a conceder crédito à habitação a 40 anos, durante uma década, calculando a taxa de esforço com base numa taxa de juro que considerava ( e era ) anormal e temporária, com umas análises de sensibilidade de mais ou menos uns cagagésimos ( porque a isso era obrigada pelo regulador ) em vez de fazer as contas com as taxas que sabia perfeitamente que inevitavelmente viriam a ser as normais?
Se durante os últimos 10 anos, a Banca tivesse dito a cada cliente potencial " no imediato a sua prestação vai ser de 200€, mas vais ter que ter capacidade, a curto prazo para pagar 400€ que é o que resulta das taxas que todos nós abemos são as normais, por isso e dada a taxa de esforço normal só lhe podemos emprestar 200.000€ e não 400.000€", será que havia tanta gente a ganir com o mais que previsível aumento das taxas?
Como teria evoluido o preço das casas, perante esse comportamento que seria o racional e normal da Banca? E se as casas não tivessem subido tanto alimentadas artificialmente com os critérios da Banca, não estaria toda a gente menos endividada?
Já nem vou falar da quase originalidade portuguesa de ter tão pouco crédito a taxa fixa ...