As empresas europeias nem pestanejaram quando quiseram mais lucro e fechar fábricas cá para ir para Turquia, China, Marrocos. Não é da minha responsabilidade enquanto consumidor prejudicar-me por patriotismo industrial. As marcas europeias que se adaptem e inovem e deixem essa mania de culpabilizar a compra racional dos clientes. Não contem comigo para essa hipocrisia. Até porque nesse caso também não se podiam comprar carros japoneses, nem teslas, nem kias. Nem volvos porque pertencem aos chineses, nem minis porque também são fabricados lá, nem nem nenhum porque a esmagadora maioria das baterias afinal vem da china país do qual estão abolutamente todos dependentes. Enquanto deu lucro foi uma maravilha. Agora que a coisa dói já não querem as mesmas regras.
No meu caso estou a adquirir um MG. Ou comprava um para as minhas necessidades dentro de um determinado preço (neste caso apenas marcas chinesas conseguiam esses requisitos) ou não comprava nada. O stand e os funcionários, mais o agente de seguros, mais o estado português mais o centro de abate estão bem contentes.
Comprar um MG porque é o que cabe no orçamento é perfeitamente legítimo. Não critico isso. Mas não podemos é fingir que comprar chinês, japonês, coreano, americano ou europeu é exatamente igual do ponto de vista económico, industrial e geopolítico.
Não é.
A China tem uma estratégia muito clara. Entra com preço, crédito, investimento, infraestrutura ou produto competitivo. Ao início parece tudo ótimo, é mais barato, é conveniente, é uma alternativa. Depois quando países e empresas ficam dependentes, essa dependência transforma-se em poder político e económico.
Vê o caso da Venezuela. Durante anos recebeu financiamento chinês, muito dele ligado ao petróleo. Parecia perfeito. dinheiro fresco, investimento e uma alternativa ao Ocidente. Resultado? Ficou cada vez mais dependente, com menos margem de manobra e presa a uma relação em que a China ganhou enorme influência sobre recursos, dívida e exportações.
E isto é muito diferente de alianças como as que existiram com os EUA. O Japão, por exemplo, cresceu muito dentro de uma aliança com os EUA, mas não foi sugado dessa forma. Tornou-se uma potência industrial, tecnológica e exportadora, com marcas próprias, indústria própria e capacidade própria. A Coreia do Sul também. Hyundai, Kia, Samsung, LG, Toyota, Honda, Sony, Panasonic, etc. São exemplos de países que cresceram e criaram campeões nacionais, não de países que ficaram reduzidos a fornecedores dependentes.
Com a China, muitas vezes o padrão é outro: primeiro vem o dinheiro, o produto barato ou a infraestrutura; depois vem a dependência. E quando dás por ela, já perdeste produção, fornecedores, know-how, margem de negociação e capacidade de decidir por ti.
Claro que comprar um MG não transforma Portugal na Venezuela. Mas o mecanismo, em escala diferente, é esse: se destruirmos a nossa capacidade industrial porque “lá fora é mais barato”, um dia acordamos dependentes dos outros para carros, baterias, software, peças, matérias-primas e tecnologia.
Isso não vos preocupa?
A mim preocupa. E muito.