Stellantis em crise

Do ponto de vista do consumidor, é muito interessante comprar um EV chinês bom e barato. Mas do ponto de vista económico é catastrófico para a economia europeia. Dramático mesmo no estado actual das coisas.

Os analistas da imprensa economica têm sido muito objectivo em relação a futuro do sector e na denúncia dos atravancamentos legais e ambientais que os políticos europeus vão impondo à sua própria indústria.
 
O nível de vida ocidental sempre se sustentou na capacidade de fazer produtos de elevado valor acrescentado.
A China planeia as coisas a muito longo prazo e lentamente vai tomando o controlo, um a um dos sectores que lhe permitem subir na cadeia de valor.
A Europa (a Alemanha principalmente) dominou nos painéis solares e hoje a China domina esse mercado e tecnologia.
A Europa dominou nos telemóveis (Nokia, Siemens, Alcatel, Ericsson, etc.) e hoje a China controla complementamente esse mercado.
A Europa também tinha os maiores fabricantes de electrodomésticos do mundo (grupo Bosch/Siemens, grupo Electrolux, etc.) e a China em muito poucos anos conseguiu meter dois players na liderança mundial dos electrodomésticos (para quem não sabe, a Haier e a Midea já são os dois maiores fabricantes do mundo de electrodomésticos).
Agora a China está a fazer exactamente o mesmo no sector automóvel.
E quando dominar o sector automóvel irá atrás do apetecível mercado da aviação (cuja Comac - a empresa estatal chinesa de aviação) já tem um clone do Airbus A320 e do Boeing 737 que mesmo com alguns atrasos acredito que irá dominar eventualmente o mercado (começando sempre pelo asiático).
E isto irá suceder outra e outra vez, noutro e noutro sector, até a Europa virar um parque de diversões para turistas ou outras actividades de relativo baixo valor.
A máquina deles está bem montada, tanto em termos de investimento público, como em termos de leis duvidosas de propriedade intelectual, como em termos de leis de proteção ambiental, como em termos de carga fiscal.
 
E por muito que no custe, essa tomada dos mercados por parte da china foi o que permitiu termos muitos desses produtos muito mais baratos. Taxar os carros é uma solução de curto prazo, são os consumidores que vão exigir produtos melhores e mais baratos, algo que a indústria Europeia não consegue fazer.

Ainda assim com muitas críticas que se façam ao Tavares ele tomou uma decisão correta no que diz respeito aos carros elétricos que foi avançar com o C3/Panda elétricos a preços baixos e bateria LFP. Vamos ver como se comportam no mercado quando saírem. Eu acho que vão ser muito bem sucedidos.
 
Os chineses entram sempre nos mercados com preços atractivos mas após tomarem uma quota de mercado maioritária ficam com a faca e o queijo na mão para colocarem os seus produtos ao preço que quiserem. A estratégia dos preços low cost ou de vender a perder dinheiro é apenas uma estratégia para tomar o controlo do mercado, após o terem na mão podem trabalhar as margens como quiserem.
Basta olhar para os telemóveis chineses, existem modelos da Xiaomi, Huawei, etc. a mais de €1000, eles não ficam eternamente nas gamas low cost, vão atrás igualmente do segmento de luxo.

Outro aspecto interessante é que após ganharem o conhecimento, ficam integrados verticalmente. Eles opõem-se às tarifas porque são fundamentalmente contra as estratégias local for local. Quero com isto dizer que eles só abrem fábricas fora da China se a isso forem obrigados. E mesmo que as abram não trazem os centros de engenharia atrás, o valor acrescentado fica sempre no país de origem.
Quando a Nokia fechou muitos centro de engenharia que tinha em Espoo / Helsínquia a Huawei na época rapidamente abriu escritórios lá e contratou ex- colaboradores da Nokia mas nunca com o intuito de desenvolver smartphones e tecnologias de rede a partir da Finlândia para sempre. A estratégia foi durante uns anos entender o conhecimento que estes ex-colaboradores tinham, envolver as pessoas em equipas de diferentes localizações e transferir o conhecimento para fora do país. A mesma estratégia que a VinSmart utilizou quando comprou a BQ e rapidamente transferiu o conhecimento que havia em Espanha para a Ásia.

Por fim vejo também aqui um desafio cultural: apesar de alguns chineses endinheirados apreciarem marcas de luxo ocidentais, a verdade é que assim que aparecem fabricantes locais com um produto minimamente decente, a maioria da população rapidamente adopta a compra de marcas nacionais. O sentimento de pertença e de nação na China é bastante forte (também devido ao regime autoritário) pelo que as marcas locais irão sempre dominar no seu próprio mercado, coisa que na Europa não acontece. A esmagadora maioria do consumidor ocidental não quer saber se está a comprar uma marca chinesa, ou se há alternativa europeia até porque na verdade a Europa não é um país, são várias dezenas de países e não existe um sentimento cultural de pertença à União Europeia, apenas e no limite ao país onde nasceu.
Um português não sente um Seat ou um Renault como "seu", é um carro espanhol ou francês, mesmo que a fábrica seja apenas a 500 ou 1000 kms de distância de casa, mas um chinês compra um carro chinês e entende-o como produto da sua comunidade mesmo que na verdade seja produzido a 4000 ou 5000 kms de distância.
 
Então para que a Stelantis sobreviva temos que impedir os mais competitivos de vender, é isso? Eu diria que isso é uma estratégia bastante soviética. O mercado evolui precisamente quando há competição e os mais fortes sobrevivem. Os mais fracos ou se adaptam ou morrem. É pelo menos isso que os ocidentais com os EUA à cabeça andaram dezenas de anos a proclamar (altamente defendido aqui no fórum para criticar os regimes de esquerda e os funcionários públicos por exemplo). Mas agora não dá jeito não é?

Venham todos os carros chineses para o mercado e o consumidor que decida.
 
Então para que a Stelantis sobreviva temos que impedir os mais competitivos de vender, é isso?

Nem por isso, antes pelo contrário.
O que politicamente se devia fazer era nivelar o terreno de jogo. O problema não é venderem carros chineses cá. O problema é a Stellantis nunca ter conseguido presença nenhuma na China porque só lá pode vender se abrir uma fábrica com um parceiro local e transferir o conhecimento. Caso contrário, se decidir exportar a partir da Europa, leva com penalizadoras taxas alfandegárias e inúmeras barreiras à comercialização lá.
 
Nem por isso, antes pelo contrário.
O que politicamente se devia fazer era nivelar o terreno de jogo. O problema não é venderem carros chineses cá. O problema é a Stellantis nunca ter conseguido presença nenhuma na China porque só lá pode vender se abrir uma fábrica com um parceiro local e transferir o conhecimento. Caso contrário, se decidir exportar a partir da Europa, leva com penalizadoras taxas alfandegárias e inúmeras barreiras à comercialização lá.



Mas isso acontece a todas as marcas que queiram produzir na China.

E a PSA (ainda antes da Stellantis), tinha na China umas 4 ou 5 fábricas.
 
Lá está, mas se a UE não endurecer a sua posição e continuar a permitir que haja esta dualidade de critérios lá e cá então é impossível competir em pé de igualdade.
A história da PSA com a Guangzhou Auto é de gritos, e acabou da única forma possível, com o fecho das fábricas na China e a saída do mercado chinês. Se a China cria todas as condições para favorecer os players locais e expulsar as empresas ocidentais do mercado deles, porque é a Europa tem de compactuar com isso?
Basta começar pela WTO onde a China não prescinde dos benefícios e direitos de ser considerada uma economia emergente quando são a segunda maior economia mundial.

De resto eles pelo menos têm uma vantagem enorme: quando decidem uma coisa não olham a meios, vamos andar décadas a discutir se vale a pena ter minas de lítio em Portugal enquanto na China é sempre a vender baterias. Enquanto nós choramos eles vendem lenços.
 
Do ponto de vista do consumidor, é muito interessante comprar um EV chinês bom e barato. Mas do ponto de vista económico é catastrófico para a economia europeia. Dramático mesmo no estado actual das coisas.

Os analistas da imprensa economica têm sido muito objectivo em relação a futuro do sector e na denúncia dos atravancamentos legais e ambientais que os políticos europeus vão impondo à sua própria indústria.

O mercado livre só é bom quando funciona a nosso favor, claro.

A famosa hipocrisia europeia.
 
Nem por isso, antes pelo contrário.
O que politicamente se devia fazer era nivelar o terreno de jogo. O problema não é venderem carros chineses cá. O problema é a Stellantis nunca ter conseguido presença nenhuma na China porque só lá pode vender se abrir uma fábrica com um parceiro local e transferir o conhecimento. Caso contrário, se decidir exportar a partir da Europa, leva com penalizadoras taxas alfandegárias e inúmeras barreiras à comercialização lá.

A Stellantis tem várias fábricas na China! Há mais de uma década. Mas as vendas lá têm sido um falhanço.

A Stellantis não vende nada na China porque os carros Chineses são melhores (para os gostos deles).
 
Os chineses entram sempre nos mercados com preços atractivos mas após tomarem uma quota de mercado maioritária ficam com a faca e o queijo na mão para colocarem os seus produtos ao preço que quiserem. A estratégia dos preços low cost ou de vender a perder dinheiro é apenas uma estratégia para tomar o controlo do mercado, após o terem na mão podem trabalhar as margens como quiserem.
Basta olhar para os telemóveis chineses, existem modelos da Xiaomi, Huawei, etc. a mais de €1000, eles não ficam eternamente nas gamas low cost, vão atrás igualmente do segmento de luxo.

Outro aspecto interessante é que após ganharem o conhecimento, ficam integrados verticalmente. Eles opõem-se às tarifas porque são fundamentalmente contra as estratégias local for local. Quero com isto dizer que eles só abrem fábricas fora da China se a isso forem obrigados. E mesmo que as abram não trazem os centros de engenharia atrás, o valor acrescentado fica sempre no país de origem.
Quando a Nokia fechou muitos centro de engenharia que tinha em Espoo / Helsínquia a Huawei na época rapidamente abriu escritórios lá e contratou ex- colaboradores da Nokia mas nunca com o intuito de desenvolver smartphones e tecnologias de rede a partir da Finlândia para sempre. A estratégia foi durante uns anos entender o conhecimento que estes ex-colaboradores tinham, envolver as pessoas em equipas de diferentes localizações e transferir o conhecimento para fora do país. A mesma estratégia que a VinSmart utilizou quando comprou a BQ e rapidamente transferiu o conhecimento que havia em Espanha para a Ásia.

Por fim vejo também aqui um desafio cultural: apesar de alguns chineses endinheirados apreciarem marcas de luxo ocidentais, a verdade é que assim que aparecem fabricantes locais com um produto minimamente decente, a maioria da população rapidamente adopta a compra de marcas nacionais. O sentimento de pertença e de nação na China é bastante forte (também devido ao regime autoritário) pelo que as marcas locais irão sempre dominar no seu próprio mercado, coisa que na Europa não acontece. A esmagadora maioria do consumidor ocidental não quer saber se está a comprar uma marca chinesa, ou se há alternativa europeia até porque na verdade a Europa não é um país, são várias dezenas de países e não existe um sentimento cultural de pertença à União Europeia, apenas e no limite ao país onde nasceu.
Um português não sente um Seat ou um Renault como "seu", é um carro espanhol ou francês, mesmo que a fábrica seja apenas a 500 ou 1000 kms de distância de casa, mas um chinês compra um carro chinês e entende-o como produto da sua comunidade mesmo que na verdade seja produzido a 4000 ou 5000 kms de distância.

Tanta asneira. As grandes empresas Chinesas têm quase todas centros de R&D nos EUA ou na Europa.

Por isso é que compram imensas empresas ocidentais. Em alguns casos em vez de comprarem uma empresa abrem um centro de R&D do zero.

No mercado automóvel que é o que se fala aqui, tens estes centros nestes países:

SAIC/MG - Inglaterra
Geely - Suécia/Inglaterra
BYD - Hungria
BAIC - Alemanha
Great Wall Motor - Alemanha/EUA
Chery - Alemanha
Changan - Inglaterra/Itália

Etc..
 
Então para que a Stelantis sobreviva temos que impedir os mais competitivos de vender, é isso? Eu diria que isso é uma estratégia bastante soviética. O mercado evolui precisamente quando há competição e os mais fortes sobrevivem. Os mais fracos ou se adaptam ou morrem. É pelo menos isso que os ocidentais com os EUA à cabeça andaram dezenas de anos a proclamar (altamente defendido aqui no fórum para criticar os regimes de esquerda e os funcionários públicos por exemplo). Mas agora não dá jeito não é?

Venham todos os carros chineses para o mercado e o consumidor que decida.

Idelamente temos de obrigar todos a produzir pelas mesmas regras, algo que não acontece há muitas décadas, apesar doos alertas para os nossos medíocres politicos.

A própria transição forçada para os EV´s é uma asneirada de todo o tamanho. Vai acabar por não acontecer em pleno, mas é suficiente para rebentar com algumas das industrias europeias.
 
Basta começar pela WTO onde a China não prescinde dos benefícios e direitos de ser considerada uma economia emergente quando são a segunda maior economia mundial.

Confundir o PIB per capita com o PIB é como confundir a beira da estrada com a estrada da Beira.

A China é a segunda economia mundial em termos de PIB.

Em termos de PIB per capita (PPP) fica abaixo da Bielorrússia ou da Líbia!
 
A própria transição forçada para os EV´s é uma asneirada de todo o tamanho. Vai acabar por não acontecer em pleno, mas é suficiente para rebentar com algumas das industrias europeias.



Daí que algumas marcas já voltaram atrás com as suas ideias, caso da FORD e da VOLVO (como meros exemplos), em até 2030 deixarem de ter carros a combustão e somente EV.
 
Tanta asneira. As grandes empresas Chinesas têm quase todas centros de R&D nos EUA ou na Europa.

Por isso é que compram imensas empresas ocidentais. Em alguns casos em vez de comprarem uma empresa abrem um centro de R&D do zero.

No mercado automóvel que é o que se fala aqui, tens estes centros nestes países:

SAIC/MG - Inglaterra
Geely - Suécia/Inglaterra
BYD - Hungria
BAIC - Alemanha
Great Wall Motor - Alemanha/EUA
Chery - Alemanha
Changan - Inglaterra/Itália

Etc..

Que modelos de automóveis ou componentes de automóveis da BYD foram desenvolvidos na Hungria?

A título de curiosidade, um artigo sobre o que é a SAIC/ MG em Inglaterra.

Acreditas mesmo que os postos de trabalho que se estão a perder com o fim da indústria automóvel europeia vão ser substituídos integralmente por esses escritórios da indústria automóvel chinesa? Na minha experiência arrisco dizer que se ganha 1 posto por cada 100 que se perderem...
 
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Idelamente temos de obrigar todos a produzir pelas mesmas regras, algo que não acontece há muitas décadas, apesar doos alertas para os nossos medíocres politicos.

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Que regras? As Impostas por Bruxelas? Tens noção que nenhum bloco económico produz pelas regras dos outros tirando uma ou duas vagas como os direitos humanos e alguns ditames ecológicos fáceis de contornar (não é VW?).

A Europa produz produtos agrícolas com as mesmas regras que os EUA? Os subsídios à agricultura são os mesmos do Brasil ou da Argentina? E os tecidos turcos e Indianos? E o minério explorado em África, América Latina ou o petróleo na Arábia?

Não há essa de as mesmas regras. Mais há muito a ideia de que o trabalho na China é todo escravo e mais não sei o quê e que é à custa de muitas emissões e por aí fora. Na verdade os salários na China estão a evoluir com o salário médio para trabalhos especializados a andar pelos 2000-3000 euros. O salário mínimo já anda quase em 400 euros nas regiões mais desenvolvidas, superior a países onde se produzem carros como Marrocos.

https://msadvisory.com/average-salary-in-china/

Per capita as emissões de CO2 chinesas são pouco mais de metade das americanas e mais baixas que as alemãs por exemplo.

Não é que a China seja grande exemplo mas não é tão mau como o pintam em algumas circunstancias. Arrisco-me a dizer que sendo orientais têm mais respeito pelo meio ambiente que muitos locais ocidentais.
 
Per capita as emissões de CO2 chinesas são pouco mais de metade das americanas e mais baixas que as alemãs por exemplo.

E tendo em conta que as empresas em todo o mundo mudaram o seu fabrico para a china, isso penalisa injustamente as estatísticas para a china.
É fácil reduzir as emissões do meu país se mudar todo o processo de fabrico para outro país, e depois apontar o dedo a esse país por causa das emissões deles ficarem mais altas. Enfim.
 
E por muito que no custe, essa tomada dos mercados por parte da china foi o que permitiu termos muitos desses produtos muito mais baratos. Taxar os carros é uma solução de curto prazo, são os consumidores que vão exigir produtos melhores e mais baratos, algo que a indústria Europeia não consegue fazer.

Ainda assim com muitas críticas que se façam ao Tavares ele tomou uma decisão correta no que diz respeito aos carros elétricos que foi avançar com o C3/Panda elétricos a preços baixos e bateria LFP. Vamos ver como se comportam no mercado quando saírem. Eu acho que vão ser muito bem sucedidos.

A Samsung riu-se, e continua líder sem recorrer a trabalho escravo sino, ou o conglomerado industrial da Hyundai, há consumidores ocidentais com verticalidade e depois há os outros.
 
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