Os chineses entram sempre nos mercados com preços atractivos mas após tomarem uma quota de mercado maioritária ficam com a faca e o queijo na mão para colocarem os seus produtos ao preço que quiserem. A estratégia dos preços low cost ou de vender a perder dinheiro é apenas uma estratégia para tomar o controlo do mercado, após o terem na mão podem trabalhar as margens como quiserem.
Basta olhar para os telemóveis chineses, existem modelos da Xiaomi, Huawei, etc. a mais de €1000, eles não ficam eternamente nas gamas low cost, vão atrás igualmente do segmento de luxo.
Outro aspecto interessante é que após ganharem o conhecimento, ficam integrados verticalmente. Eles opõem-se às tarifas porque são fundamentalmente contra as estratégias local for local. Quero com isto dizer que eles só abrem fábricas fora da China se a isso forem obrigados. E mesmo que as abram não trazem os centros de engenharia atrás, o valor acrescentado fica sempre no país de origem.
Quando a Nokia fechou muitos centro de engenharia que tinha em Espoo / Helsínquia a Huawei na época rapidamente abriu escritórios lá e contratou ex- colaboradores da Nokia mas nunca com o intuito de desenvolver smartphones e tecnologias de rede a partir da Finlândia para sempre. A estratégia foi durante uns anos entender o conhecimento que estes ex-colaboradores tinham, envolver as pessoas em equipas de diferentes localizações e transferir o conhecimento para fora do país. A mesma estratégia que a VinSmart utilizou quando comprou a BQ e rapidamente transferiu o conhecimento que havia em Espanha para a Ásia.
Por fim vejo também aqui um desafio cultural: apesar de alguns chineses endinheirados apreciarem marcas de luxo ocidentais, a verdade é que assim que aparecem fabricantes locais com um produto minimamente decente, a maioria da população rapidamente adopta a compra de marcas nacionais. O sentimento de pertença e de nação na China é bastante forte (também devido ao regime autoritário) pelo que as marcas locais irão sempre dominar no seu próprio mercado, coisa que na Europa não acontece. A esmagadora maioria do consumidor ocidental não quer saber se está a comprar uma marca chinesa, ou se há alternativa europeia até porque na verdade a Europa não é um país, são várias dezenas de países e não existe um sentimento cultural de pertença à União Europeia, apenas e no limite ao país onde nasceu.
Um português não sente um Seat ou um Renault como "seu", é um carro espanhol ou francês, mesmo que a fábrica seja apenas a 500 ou 1000 kms de distância de casa, mas um chinês compra um carro chinês e entende-o como produto da sua comunidade mesmo que na verdade seja produzido a 4000 ou 5000 kms de distância.