paulofer Não precisas de me explicar os males do Trump... Eu não estou aqui a defender as políticas do Trump, nem a forma como se relacionou com potenciais parceiros. Não seria um votante MAGA, tal como não votarei nos MAGA wannabes das eleições daqui do nosso "bairro". O que quero dizer é que o mundo é bem mais complexo do que essa visão simplista e até infantil de que toda a administração Trump é composta por incompetentes sem noção do que fazem.
Mas já que insistes, dou também a minha opinião sobre o resto.
Na minha perspectiva, os EUA apostaram nas indústrias tecnológicas e de alto valor acrescentado. São os maiores inovadores, dominam todas as novas revoluções tecnológicas há décadas, dominam o mundo dos serviços. Se as empresas americanas desligassem os seus serviços web, tudo parava: governos, bancos, empresas, etc. Mas os produtos industriais e de maior mão de obra: como fabricar eletrodomésticos, tratores, chips, telemóveis ou roupa, passaram a ser em larga medida produzidos fora. O equilíbrio grosseiro é este: os EUA desenvolvem tecnologia e prestam serviços, o resto do mundo fabrica.
Isto trouxe enormes benefícios: crescimento económico impressionante, salários médios elevados, domínio do mercado de capitais (70% do MSCI World). Mas, a longo prazo, não produzir é insustentável. Os EUA acumulam défices externos há 50 anos; a dívida pública federal ultrapassou os 125% do PIB e o défice supera 6%, sem margem de redução, pois a maior parte da despesa é fixa (juros, saúde, defesa, segurança social, etc.). O caso da DOGE é sintomático, mesmo com todos os cortes anunciados pelo Musk e todo o circo montado, até agora conseguiram apenas 3% do objetivo inicial a que se propuseram, o que é totalmente irrelevante no orçamento total.
Outro reverso da medalha: a globalização não beneficiou todos por igual. Tal como na Europa, também nos EUA houve grandes vencedores, os trabalhadores típicos das tecnológicas têm grandes pacotes salariais e de benefícios sociais, podem apostar em estratégias FIRE e deixar de trabalhar antes dos 50 anos, mas o trabalhador fabril americano foi um dos grandes perdedores. Apesar do crescimento e dos salários, muitos americanos queixam-se do custo de vida, de terem vários empregos e de trabalharem 80 horas por semana e continuam a fazer um part time no Walmart depois da idade da reforma... Esta frustração, tal como o défice, foi-se acumulando. Administrações como a de Biden (e anteriores, incluindo os republicanos como o Bush) ignoraram o problema e permitiram que fosse ficando cada vez maior e isso levou ao surgimento de um presidente populista como Trump, que para mim é mais sintoma do que causa dos problemas. O mesmo se passa na Europa, com o crescimento dos movimentos populistas, os partidos que deveriam ser sensatos e responsáveis fecharam-se numa bolha, discutem assuntos, problemas e os dramas das micro agressões que não interessam minimamente ao Zé Povinho, recusam-se sequer a reconhecer ou discutir os problemas reais que uma parte significativa da população sofre e ainda classificam de broncos, ou de preconceituosos qualquer um que fale disso... Depois sobram os populistas para representar quem sofre com esses problemas.
Perante todo este desiquilíbrio externo só vejo três soluções para os EUA:
- Manipulação cambial: Só funciona se for coordenada, como nos acordos de Plaza dos anos 80. Mas na altura os EUA só tiveram de negociar com 4 países sensatos e decentes: Japão, UK, França e Alemanha. Hoje, com um grande peso mundial em países como a China que desempenha um papel de verdadeira sanguessuga nesta onda de globalização, que manipula regras, câmbios, subsidia, copia propriedade intelectual, pratica dumping social, ambiental, etc.. etc.. etc.. é quase impossível negociar algo semelhante sem que eles sejam forçados a isso.
- Acordos comerciais detalhados, onde seja estipulado o que e em que quantidades é exportado/importado: Demoram anos e exigem cooperação, que não existe nem da China e honestamente, nem da UE. Os EUA e a UE andaram anos a fio a negociar um acordo de livre comercio e acabaram por desistir por falta de acordo.
- Tarifas, acabam por ser a pior solução, já que penalizam importações, mas não tornam as exportações mais baratas, mas não dependem de negociar com ninguém, é uma decisão de cada pais. Protegem a economia interna, mas desincentivam a inovação o que no longo prazo costuma ser fatal. Ainda assim, os EUA são mais autónomos do que a China ou a Europa e estarão melhor preparados para entrar nestas guerras: as importações são só 14% do PIB, contra 18% na China ou 53% na UE.
No meio disto, qual o papel do Trump? É o mesmo que sempre teve... Age como um “mad man”, cria espetáculo, entra em jogos de “chicken” (uma situação da teoria dos jogos, que tem como caso mais conhecido a famosa situação em que dois condutores vão a acelerar um em direção ao outro para ver qual se acobarda e desvia primeiro), para reforçar a ideia de imprevisibilidade e força o adversário a negociar. Faz exigências impossíveis para ancorar a discussão e, no fim, tudo tem de acabar num “deal”. Com o Trump, sempre foi assim — nos negócios, na TV, na presidência. Agora não será diferente: faz o seu espetáculo, bluffs, e depois virá o tempo dos acordos.
Com a Ucrânia, ameaçou abandonar Zelensky, chegou ao ponto de dizer que ele era o ditador e era quem iniciou a guerra — bluff. Mas cá para mim, no fim, veremos a Europa a intervir com homens no terreno e os EUA a garantir as terras raras, o controlo de centrais nucleares e provavelmente os negócios para os recursos russos. Com a FED, ameaçou despedir Powell — bluff. Agora já diz que nunca faria isso, mas o dólar vai desvalorizando. Nas guerras comerciais, depois de mostrar que pode ser imprevisível e louco, o Trump irá usar isso para negociar os acordos que tanto gosta de anunciar. Não sei o que sairá daí, mas talvez seja o único caminho para forçar os outros blocos a um equilíbrio que permita desvalorizar o dólar e conseguir acordos vantajosos para os EUA.
Por isso eu digo, andamos saqui todos a discutir sem fazermos minimamente ideia dos acordos e dos equilíbrios que se vão formar depois disto tudo, agora, achar que é só birras e auto destruição, parece-me uma visão extremamente errada.
Dito isto e indo ao que realmente interessa...
Em termos de investimentos, eu acredito que estamos longe da implosão do império americano. Após a fase inicial de loucura e de instabilidade máxima, seguir-se-ão as negociações e veremos como tudo se desenha, provavelmente com mais tarifas, acordos comerciais favoráveis aos EUA e alguma manipulação do dólar. Por isso, esta ideia de desinvestir fortemente nos EUA e apostar na Europa, ou abandonar o MSCI World por produtos ex-US que vejo largamente discutida em muitos sítios com base no argumento que os EUA estão a ser governados por idiotas e entraram numa espiral de auto destruição, pode trazer dissabores. Não digo que quem só tinha SP500, não deva procurar diversificação, porque.. Nunca se sabe... Mas já diria o mesmo antes desta trapalhada toda.
Cada um sabe do seu dinheiro. Apesar de há algum tempo ter um underweight nos EUA face ao MSCI World, por achar o mercado demasiado sobrevalorizado, não vejo os EUA deixarem de ser, tão cedo, o país mais representado nos meus investimentos. Não estou a imaginar que a Europa consiga suplantar os EUA quando a poeira assentar e começar o próximo rally nas bolsas.