Mesmo olhando para o nosso PSI20, que deveria ter as 20 empresas de maior sucesso em Portugal, se percebe rapidamente que as questões da competitividade internacional ficam melhor nos livros, porque na prática actuar em mercados altamente regulamentados, com rendas garantidas e com negócios garantidos pelo dinheiro publico é muito mais conveniente... Não para a sociedade ou para o Zé Povinho, mas para quem detém essas empresas que actuam debaixo do guarda chuva estatal, entenda-se...
Olhando para os 20 nomes temos;
- 5 bancos, dois já suspensos: BPI, BCP, BANIF, BES e ESFG. O sector mais regulamentado, supervisionado e inclusivamente apoiado com dinheiros públicos. Ganharam a dimensão que têm ao serem os parceiros do desastre do alcatrão que ocorreu em Portugal, são as entidades que estão do outro lado das PPP's, são as entidades que financiaram as grandes construtoras, são as entidades que fizeram lucros colossais na época em que a estratégia delineada pela dupla Constâncio/Sócrates era a do crédito sem limites...
- 2 construtoras: Mota-Engil e Teixeira Duarte. Hoje com operações importantes no estrangeiro, mas cuja sobrevivência em Portugal está intimamente ligada às obras publicas. (não confundir operações externas, que criam emprego e valor onde estão localizadas, com exportações)
- 4 empresas do sector energético: EDP, EDPR, GALP e REN. Um sector hiper-regulado, com lucros assegurados pelo estado quer chova ou faça sol. Todas elas ex-monopólios do estado que foram privatizadas como monopólios e não numa lógica de trazer competição ao mercado.
- 2 empresas de telecomunicações: PT e NOS. Duas empresas em outro sector altamente regulado e supervisionado, com uma boa parte dos preços e da estrutura fixadas pela Anacom. Mais uma vez são empresas que resultam de antigos monopólios, de um lado a PT cuja história é conhecida e que hoje se começa a perceber porque é que foi "protegida" da OPA da Sonae usando a participação da CGD, e já se percebe melhor o que são e para que serviu a defesa dos "centros de decisão nacionais", é que ninguém acredita que com o merceeiro do Norte a mandar, a empresa tivesse desbaratado metade do seu valor num favor pessoal feito ao banqueiro do regime (sendo no final disto tudo a PT, mais uma bela história dos resultados da podridão das relações entre governos e empresários que acabaram por transformar o que poderia ser uma das poucas empresas nacionais com alguma projecção tecnológica a nível internacional, numa muleta da Oi que vai acabar absorvida com um peso pouco superior a 20% no global do negócio), e do outro lado temos a antiga PT Multimédia\TV Cabo, que absorveu entretanto a Sonaecom.
- CTT, outro monopólio do Estado entretanto vendido como tal, detentor de um serviço universal atribuído sem concurso ou concorrência.
- a Impresa... O seu principal activo é a atribuição de uma das duas licenças que o Estado atribui para a existência de canais privados de TV em sinal aberto. Tem tido no seu presidente um dos maiores lobbies junto do poder politico e da Anacom para que as potencialidades da TDT não sejam aproveitadas e uma boa parte das pessoas continue confinada a 4 canais. Sempre que se fala em mais canais em sinal aberto, lá aparece o Balsemão a dizer que vai ser uma desgraça porque o mercado está saturado..
As primeiras 15 empresas, todas têm o dedo do Estado, algumas só existem porque foram monopólios criados pelo Estado sem qualquer concorrência e entretanto vendidos, ou porque vivem em mercados altamente regulamentados, quase todas com enormes rendas e vantagens garantidas pela lei..
- 2 grandes distribuidoras; Sonae e Jerónimo Martins.. Duas empresas que apesar de operações que têm no estrangeiro, as suas receitas em Portugal assentam essencialmente no consumo interno e na importação de bens.
- e por fim, finalmente, com apenas 5% de ponderação no índice, temos 3 empresas que exportam e competem no tal mercado global: Portucel, Semapa e Altri. Todas ligadas à silvicultura.
E se esquecermos o PSI20 e formos para as PME's de cada concelho vamos perceber o mesmo, as empresas que gerem mais recursos vivem à sombra das câmaras municipais... É onde se está mais confortável..
Isto num pais com um mercado interno minúsculo como o nosso é trágico e permite perceber porque temos uma produtividade tão baixa no contexto europeu, e porque somos quase sempre deficitários em relação ao exterior, situação cujos desequilíbrios acumulados nos últimos 40 anos já resultou em 3 falências e resgates.
Se olhássemos mais para os livros de gestão e nos refugiássemos menos nos negócios de amigos, entre decisores políticos e empresas, no compadrio, no esconder os problemas com divida sobre divida, por vezes oculta, e enfrentássemos os problemas com pragmatismo, talvez as coisas fossem um pouco melhores..