A mania dos senhores doutores, senhora dona fulana, exmo. senhor...
A mania dos senhores doutores, senhora dona fulana, exmo. senhor...
"Eu de facto ficaria imensamente grato se me tratassem por Vítor, senão, enfim, tenho que começar a distribuir doutores, doutoras, senhores, senhoras e talvez possamos simplificar a nossa vida se não fizermos tal coisa. Mas tratem-me mesmo por Vítor, senão isto não converge."
(Vítor Gaspar, novo Ministro das Finanças)
"Não gosta que o tratem por doutor, nem nos contactos com jornalistas que lhe ligam" - Revista "SÁBADO", acerca do novo Ministro da Economia
"Na Alemanha, tratam-se as pessoas pelo seu último nome: Sr. Müller ou Sra. Fischer. Não se trata ninguém por doutor, a não ser que ele seja uma pessoa que efectivamente tenha feito e concluído um doutoramento em determinada área" - orador da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã nos "Dias da Alemanha", no IEFP de Lisboa, Junho de 2011.
Programas Prós e Contras da RTP, esta semana: o rapaz que interveio, cheio de entusiasmo, tratando Fátima Campos Ferreira por "tu", ao que ela respondeu, rindo, algo como isto:
"Olhe, eu até gostei do pormenor de me ter tratado por tu, pois hoje em dia todos se tratam por senhores doutores, existe um excesso de formalismo, e tratar assim as pessoas por tu é uma lufada de ar fresco..."
Estas situações fizerem-me reflectir num fenómeno que é muito português e que por vezes entra no domínio do exagero e do abuso (para não lhe chamar vassalagem pura e bacoca
) de se chamar "doutor", "exma. sra. dona", "engenheiro", etc. a tudo o que mexe e que detenha uma posição que esteja (nem que muito ligeiramente) acima de simples funções, como agora tanto se diz, de "assistência operacional" - leia-se, o desgraçado que se limita a cumprir ordens e a
fazer ou
executar o trabalho físico que tem realmente de ser feito.
Para qualquer lado que se telefone, a mesma coisa: "O Doutor não está", "O engenheiro está numa reunião", "A exma. caríssima excelsa senhora dona X" já vem falar consigo.
E agora eu pergunto: será que são mesmo necessárias essas "paneleirices" todas? Chamar
senhor doutor a torto e a direito, só porque frequentou um dia o ensino superior e às tantas nem sequer concluiu o curso em que entrou? Viver num país de (pseudo-)títulos, de excesso de formalismo no tratamento entre pessoas, muitas vezes, são simplesmente colegas de trabalho (apenas com uma função diferente entre eles), tornando as relações mais frias e distantes e criando até um fosso artificial entre as pessoas que tantas vezes impede de melhorar o ambiente laboral e, em última análise, de contribuir para a melhoria da produtividade e do crescimento da economia?
Por que será que isto é assim? Resquícios do tempo da "velha senhora", em que a educação seguia regras extremamente rígidas? Complexos de inferioridade mal disfarçados? Ou simplesmente uma atitude
snobista e de tentativa de gerar falsas elites, numa de "separação entre o
trigo e o
joio"?
E se as pessoas se deixassem de manias e fossem ao que realmente interessa, que é valorizar e tirar o máximo proveito das relações humanas, não viveríamos num mundo melhor e menos stressante?