Este post é bom. E é uma das coisas que as pessoas não querem assumir, porque lhe deu jeito ter juros baratos ou negativos.
Mas esquecem-se que um bem como uma casa, que todos precisamos, e são bens de dezenas/centenas de milhares de euros que ao terem sofrido estes aumentos escandalosos, meteram o pessoal no lodo.
Um casa que custava 200K passar a custar 400K sem ter havido inflação para isso, é para mim, MUITO mais prejudicial que a minha despesa anual num "cabaz" ter aumentado 900 euros por ano devido a uma inflação de 9%.
E tem havido aumentos salariais de 4-5% que reduzem na realidade o peso da inflação para metade do que é anunciado!
A questão é bastante complexa.
Essa casa não passou dos 200k para os 400k do dia para a noite e
sem que ninguém estivesse a dar conta do problema.
Há muito tempo que muita gente dizia que apenas olhar para os números "oficiais" da inflação era um erro. Era como conduzir um carro de rally Grupo B à noite sem faróis.
Digo isto porque era claro que havia activos completamente inflacionados: Imobiliário (habitacional e comercial) na grande maioria dos locais onde há aglomeração de pessoas; mercado de acções; mercado de obrigações (quer de empresas, quer de estados ... estamos apenas a falar dum dos maiores mercados mundiais).
Olhar meramente para as taxas de juro só conta uma parte da história ...
sem perceber o que é o QE e a escala astronómica da sua aplicação faz com que a análise seja superficial. É como uma cadeira apenas com uma ou duas pernas.
Os rios de liquidez tinham de ir parar a algum lado e de preferência para activos com rentabilidade. Se mesmo junk bonds andavam a pagar valores ridículos era, e é, certinho que os agentes iriam procurar alternativas.
E uma das alternativas foi o imobiliário.
Existem dezenas de fundos REIT que possuem market cap de milhares de milhões de USD ou EUR. Somem a isso fundos "fechados". E indivíduos que por estarem no topo da pirâmide foram os primeiros a beneficiar dessa liquidez e usufruíram de salários e rendimentos muito altos ... estou a falar de gestores de topo e funcionários de topo de grandes empresas; logo pessoal que podia comprar a valores bem acima do mercado.
Foi, e continua a ser, uma pressão brutal no mercado (e não é só cá), com muita gente com "bolsos fundos".
No caso nacional foi casar uma (muito) baixa taxa de construção com essa pressão do lado comprador e o caldo entornou.
Para fechar quero reforçar o ponto principal do post: o problema não foi somente a questão dos juros baixos; foi a combinação dos juros baixos + QE astronómico em praticamente todos os BCs relevantes a nível mundial.
Mas isto é uma discussão "velha" já que mesmo no início havia quem fosse muito crítico deste caminho.
Principalmente uns gajos chatos do Bundesbank.
Só que este tipo de política monetária era espectacular no curto/médio prazo; era a via mais fácil e por isso foi avante.
Facilitou o financiamento dos governos que assim não tinha de fazer opções, não tinham de fazer reformas, não tinham de sanear a corrupção e desvio de dinheiro público.
Deu uma falsa sensação de poder de compra aos particulares.
Foi fantástico para as grandes empresas que puderam financiar-se ao preço da uva mijona, muitas vezes para fazer buy back de acções próprias (subindo o seu valor e os prémios dos gestores de topo) e facilitando o pagamento de dividendos mais chorudos.
Como dizia o
Avant ... "pick your poison". Escolheu-se uma via que era fácil a curto/médio prazo. E agora os problemas estão a vir à tona.
Não se consegue manter a também da panela de pressão com a válvula fechada eternamente.