Celsius,
Agradeço por teres explanado a tua percepção e visão sobre o assunto do petróleo.
Sabemos que provavelmente nenhum de nós está 100% certo sobre o que se passa nesta área, mas o mundo é mesmo assim, diferentes visões sobre o mesmo assunto, em que ninguém está certo, mas todos poderão ter razão (irónico, não é?).
Penso que isto do petróleo, vai muito além da simples afirmação da Arábia Saudita, e do principe MBS.
Basicamente, tudo se desenvolve em torno do domínio de um recurso energético, tão importante no nosso mundo, que seria difícil de obter em situações normais.
Concordo com algumas coisas que escreveste (que estão bem fundamentadas), mas a questão de estratégia de navegar à vista não me convence.
Na minha opinião, a estratégia da Arábia Saudita está bem delineada. Pode é não resultar, por mil e uma razões.
Ora então vou explicar porque é que acho que a “estratégia” do MBS não tem nada de especial e nem sequer é a mais correcta.
Antes de mais vamos por partes.
Arábia Saudita quer, literalmente, dizer "terra da família Saud."
Quer isso dizer que há mta gente a comer à mesma mesa, sendo essenciais as receitas do petróleo para a manutenção do regime.
Por outro lado cabe desde já desmistificar um pressuposto. Os custos de propecção Sauditas são dos mais baixos do Mundo.
É verdade; Porém não é apenas essa métrica interessa, sendo que os mais baixos até são dos países dos EAU devido às caracteriticas dos poços.
De todo o modo a métrica que interessa mais é o valor que esses países todos precisam para pagaram as despesas correntes. Tudo vai ter aos orçamentos desses países. Para não ter défice a Arábia faz conta a petróleo por volta dos 50/60$. Os Paises dos EAU idem.
Ou seja, todos perdem com o preço excessivamente baixo do petróleo.
Concordo quando dizes que todos perdem com o preço excessivamente baixo do petróleo, mas provavelmente de todos os países e regiões produtoras de petróleo, as economias do Médio Oriente serão das que estarão melhor preparadas para aguentar esta crise, fruto da "brutalidade" de dinheiro que têm disponível.
Depois tenho ouvido dizer que a “estratégia” passa por acabar com a estratégia do shale, para, com essa industria aniquilada dominar o fornecimento a bel-prazer. Se é ou não, não sei. O que sei é essa industria passou por isso há poucos anos atrás e o que fez foi tornar-se mais lean e baixar bastante os custos de produção. Mesmo que várias empresas vão ao charco, os poços e campos não desaparecem e mto menos a tecnologia e ferramentas para os extrair. Mal o petróleo volte a subir, rapidamente a economia dinâmica dos EUA consegue arranjar maneira de o produzir. A isto acresce que é uma industria estratégia fundamental para os EUA a nivel politico, pelo que há a forte probabilidade de a Casa Branca intervir com diversos apoios.
Por isso não acho que, a haver, essa estratégia seja a correcta.
O shale neste momento está fora de corrida. Qualquer exploração ao actual nível de preços e produção, é prejuízo certo.
Dizes que a tecnologia poderá evoluir, e baixar os preços de extração e produção, mas isso demora tempo e necessita de recursos (apoio financeiros). No entanto, numa área tão importante como o petróleo, ter que necessitar apoios para ser rentável é um pouco non-sense...
O petróleo deve servir para dar dinheiro aos países produtores, e não ser um sorvedouro de recursos..
A minha leitura do que se passa é a seguinte.
O principe MBS não consegue sobressair em nada. O assassínio do Kashoggi foi uma bomba, os ataques à refinaria ficarem sem se saber, com provas mínimas, quais foram os Autores, e mesmo o IPO da Aramco foi um fiasco a partir do momento que tentaram cotá-la em Londres ou em NY e não conseguindo foi para a bolsa Saudita. Tem por isso uma grande necessidade de afirmação.
Por outro lado têm um arqui-inimigo que é o Irão, que por sua vez está fraquíssimo. Seja por causa da quase guerra com o EUA, o abater do avião civil. Têm uma particularidade que é a construção da bomba atómica que segundo sei fica carissimo ao nivel das matérias-primas e da energia para funcionar as centrifugadores.
Portanto o que se passou foi uma zanga entre a Arabia e a Russia que é o aliado mais conhecido do Irão. Eles queiram chegar lá e cortar a produção. A Russia diz que não e a Arábia vinga-se sem qualquer visão estratégica.
É aqui que não concordo. A estratégia está lá. Ou os países produtores baixam a produção para aumentar o preço do petróleo, ou a Arábia faz dumping (como o fez, inundando os mercados com petróleo barato).
A Arábia Saudita está a aproveitar um conjunto de circustâncias (que provavelmente não se vão repetir tão cedo), para tentar obter o domínio sobre o petróleo.
Algo que seria impossível em condições normais (e daí todas as estratégias utilizadas anteriormente, não tenham resultado)...
Os preços iriam sempre descer com o Covid mas não era preciso inundar o mercado. Pior que isso são que, quem perde são diversos aliados de décadas da Arábia, ou seja quase todos da OPEC nomeadamente países pobres Africanos, Venezuela, etc. Eles vão continuar a produzir, até porque não têm outra saída. No final da “crise” a capacidade produtiva vai ser a mesma e a Arábia não vai alterar em nada a sua posição actual.
Aqui chegados considero que o que há é navegação à vista da Arabia sem qualquer visão estratégica. Então se a reunião de segunda, convocada de emergência, acabar com acordo de cortes de produção, fica a prova que nunca houve qualquer estratégia subjacente à posição da Arábia.
Como não existe consumo, e mantendo o actual nível de produção, os preços vão manter-se inevitavelmente baixos. E se a Arábia Saudita continuar a inundar o mercado com petróleo a baixo preço, todas as economias dos países produtores de petróleo (que na realidade, e considerando o panorama actual, são extremamente dependentes do mesmo) vão sofrer a sério.
Volto a dizer, que fruto da quantidade brutal de dinheiro que a Arábia Saudita tem disponível, conseguem aguentar muito mais que os outros países.
Com o mundo em crise, fruto do COVID-19, os países têm as suas economias em stand-by, logo não se conseguem virar para outras áreas (a produção está parada, indústria e serviços em lay off, o consumo reduzido a minimos), para evitar o "rombo" das receitas do sector do petróleo.
A única solução é efectivamente chegarem a acordo com cortes da produção, provavelmente na reunião de emergência.
E quase que posso garantir que, quem vai ditar as regras será a Arábia Saudita (e restantes países do Médio Oriente).
Daí digo que vão sair fortíssimos desta situação.
Vale o que vale...